Os dados do relatório eram suspeitos, e eu sabia que tinha algo errado ali. No mínimo, insumos superfaturados e desvio de verba. Mas, pela reação do Jonas, eu estava esperando coisa até pior.
Meu telefone ficava vibrando com mensagens do idiota do Márcio. Um monte de piadinhas sem graça sobre como eu e a Isabela estávamos aproveitando nossa lua de mel. Percebendo que eu estava ignorando, ele chegou a me mandar um e-mail com instruções para um primeiro encontro ideal. Na lista de lugares pra levá-la, por coincidência, tinha o restaurante japonês onde fomos almoçar.
Márcio escreveu:
“Não é um muquifo a ponto de ofendê-la, mas também não chega a ser um lugar chique demais. Porque, vamos combinar, não queremos traumatizar ninguém.”
Idiota. Eu estava cercado por idiotas inúteis.
Me senti mal por ter escolhido o mesmo lugar pra levar Isabela. Pensei se a razão era a mesma que a dele. Mas eu tinha levado ela lá pra que ela se sentisse bem… não era? Ou era pra que eu não tivesse que passar vergonha ao me exibir com alguém como ela onde pessoas como eu frequentavam?
Droga.
A tempestade ficou cada vez mais forte. Inês tinha me ligado dizendo que lá em São Paulo estava ainda pior e que o trânsito estava impossível. Sugeriu que ficássemos em São Carlos e voltássemos só amanhã. Se ofereceu pra olhar o Thales.
Eu tinha ficado relutante. Não queria passar a noite aqui. O que eu faria com Isabela? Mas, quando a vi do lado daquele Jonas e percebi o jeito como ele olhava pra ela, falei sem pensar. Aceitei que Marisa fizesse uma reserva.
*
O trânsito estava lento por causa da tempestade. Isabela ficou quieta no banco do passageiro, olhando a chuva cair através da janela. Eu tentei focar na estrada, mas minha cabeça voltava para o relatório, para Jonas e para o jeito como ele tinha olhado pra ela. Tinha algo predatório naquele olhar.
Quando chegamos ao hotel, um manobrista apareceu correndo com um guarda-chuva. Entreguei a chave do carro e seguimos para dentro.
O saguão estava cheio de gente tentando se abrigar da chuva. Fui direto até a recepção enquanto Isabela ficou ao meu lado, segurando a ecobag contra o corpo.
Foi ali que o atendente me informou que tínhamos apenas um quarto reservado. De casal.
Claro. O que mais eu esperava? Éramos o casal inusitado do momento. Era óbvio que dividiríamos o mesmo quarto… a mesma cama.
Peguei o cartão da chave e seguimos para os elevadores.
Entramos em silêncio. O elevador subiu devagar e ninguém disse nada durante o trajeto. Quando a porta abriu no nosso andar, seguimos pelo corredor até encontrar o número do quarto.
Passei o cartão na fechadura e abri a porta.
— Pode entrar — falei.
Isabela estava parada feito uma estátua na porta, os olhos arregalados. Parecia mais apavorada do que eu.
Depois de alguns segundos de relutância, ela passou por mim e entrou. O espaço apertado entre nós e a porta fez com que o corpo dela raspasse um pouco no meu, e eu senti o calor da pele, o cheiro dela…
Entrei em seguida, meu olhar percorrendo o quarto, esperando ver algo diferente só pra confirmar o que eu já sabia: o quarto tinha uma cama só.
Claro.

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