A culpa tomou conta de mim. Mais do que não ter contado tudo para Vinicius assim que fiquei sabendo, eu me sentia culpada por não ter percebido que Thales continuava apanhando. Ele era minha responsabilidade e eu tinha falhado com ele.
Fiquei tentando organizar as palavras na minha cabeça, e não consegui. Vinícius estava de pé atrás da mesa do escritório, as palmas abertas apoiadas na madeira, o olhar fixo em mim com aquela expressão que eu já sabia reconhecer muito bem: estava tentando se conter. A mandíbula travada, a respiração curta.
— Desculpa — falei, e a palavra saiu pequena, insuficiente. — Eu deveria ter te contado antes. É que o Thales me pediu pra não contar.
Vinícius soltou o ar todo de uma vez e deixou escapar um riso incrédulo. Ele estava furioso, e com razão. Eu tinha sido muito irresponsável por ter escondido isso dele… mas, em minha defesa, eu também não sabia que Thales tinha apanhado de novo. Na minha cabeça, o bullying tinha parado, porque ele nunca mais reclamou e eu nunca mais vi marcas no corpo dele. Enquanto eu pensava no que falar, percebi que a paciência dele estava chegando ao limite.
— O Thales pediu pra não contar? — ele repetiu, agora sem fazer questão de manter a calma. — O Thales tem dez anos! Você perdeu totalmente o juízo?!
Tentei abrir a boca para justificar, mas ele fez sinal com a mão para eu parar. Ele encheu um copo d’água e bebeu de uma vez, massageou as têmporas e depois falou:
— De quem ele tá apanhando?
— De uns meninos na escola — continuei, porque não tinha mais como enrolar.
— Desde quando?
— Eu fiquei sabendo há algumas semanas.
— Meu filho tá apanhando na escola há semanas e você não me falou nada?! — Vinícius berrou, e eu me encolhi.
— Eu pensei que tinha sido só daquela vez. Ele nunca mais deu sinais, e eu não percebi mais machucados nele. Me desculpa, eu sei que não tem como perdoar o que fiz.
Vinícius ficou imóvel.
— Isabela… — ele disse o meu nome entre os dentes.
— Ele implorou pra que eu não falasse. Ficou desesperado, Vinícius, ficou chorando com medo de que você descobrisse. Queria levá-lo pro hospital, ele não queria ir… ele me disse que você ficaria bravo com ele.
— Bravo com ele? É meu filho, Isabela! Não é um assunto seu pra decidir me contar ou não. Eu sou o pai dele!
— Eu sei.
— Será que sabe? — Ele se afastou da mesa num movimento brusco, passando a mão no cabelo. — A Valéria vai usar isso contra mim! Ela tem fotos do corpo do meu filho cheio de hematomas! Vai apresentar isso em juízo…
— Desculpa, de verdade. Eu só quis ajudar… Não quis trair a confiança do Thales…
— Preferiu trair a minha?! Você sabe disso há semanas e eu descobri agora, da pior forma possível, através da pior pessoa! Você me devia lealdade! Quem paga o seu salário sou eu!
A frase caiu entre nós como uma bomba. Meu estômago se revirou e senti vontade de chorar, principalmente porque ele tinha razão.

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