Fiquei esperando até que Valéria autorizasse minha entrada no condomínio. Era isso que ela amava fazer. Além de me humilhar, gostava de me fazer esperar. E ela fazia isso com naturalidade, anos de prática. Era a forma dela deixar claro quem tinha o controle da situação.
Respirei fundo e me lembrei do que Isabela tinha dito antes de eu sair: eu tinha que manter a calma… mostrar pro Thales que ele podia confiar em mim.
Repeti isso mentalmente enquanto o segurança finalmente erguia a cancela.
Estacionei na frente do prédio, subi até o apartamento dela, bati na porta e tive que esperar mais um pouco até que ela abrisse, claro. Mas o que eu encontrei do outro lado não era a Valéria que eu conhecia. Ela parecia transtornada, e por um segundo fiquei sem entender o que estava acontecendo.
— Valéria, vim buscar meu filho. — Mantive a voz firme. — E antes que você comece com as suas acusações, a guarda é minha. Você sabe disso.
— O Thales não está aqui.
Ela abriu mais a porta e deu um passo pra trás, deixando eu entrar. O apartamento estava com as luzes todas acesas, a empregada em pé no canto da sala com expressão de culpa.
— Fui até a sua casa e deixei ele aqui. — Valéria disse, passando as mãos uma na outra num gesto nervoso que também não combinava com ela. — Com a Luciana. Quando voltei, ele tinha fugido.
— Você foi até a minha casa com falsas acusações sobre mim, enquanto meu filho fugia do seu apartamento. Só pode tá me sacaneando! Tá escondendo ele em algum lugar aqui? — comecei a andar pelo apartamento. — Thales!!!
Mas ele não respondeu. Procurei nos quartos, pela casa toda, e ele não estava em lugar nenhum.
Merda.
— Eu não imaginei que ele fosse —
— Você é uma irresponsável!
Valéria endireitou os ombros na hora, e ali estava a Valéria de sempre.
— Eu??? Você realmente quer me acusar, logo você?
— Não tenho tempo pra isso agora. — Virei de costas pra ela e fui em direção à porta. — A gente precisa encontrar o Thales.
Minha cabeça estava a mil, tentando imaginar onde esse moleque tinha se enfiado dessa vez. Não era possível que ele tinha conseguido fugir de novo. Como uma criança de dez anos conseguia sair de um condomínio de luxo, cheio de segurança, enquanto eu mal conseguia entrar?
Meu celular vibrou no bolso e eu peguei rapidamente. Vi o nome da Isabela no identificador de chamadas e atendi de imediato.
— Vinícius. — A voz dela era calma. — O Thales tá com meu pai.
— Com o seu pai?! Onde?
— Na hamburgueria.
Fechei os olhos, sentindo a alma voltar para o corpo.
— Você tem certeza?
— Meu pai acabou de me ligar. Disse que ele apareceu lá sozinho, que estava bem mas que claramente tinha saído sem avisar ninguém.
— Fala pra ele que tô chegando! Não deixa ele sair de lá.
Desliguei e já estava a caminho da porta quando ouvi os passos de Valéria atrás de mim.
— Onde você vai? Encontrou ele?
— Encontrei.
— Eu vou com você.
— Valéria, você já fez o suficiente por hoje.
Ela abriu a boca pra responder alguma coisa mas continuei antes que ela pudesse me interromper.

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