A alegria do Thales era contagiante e ele não parava de falar desde que o filme tinha acabado.
Fiquei muito grata por isso porque preencheu o silêncio que certamente seria constrangedor entre mim e Vinicius, fazendo o tempo voar. Mal parecia o mesmo menino de semanas atrás, e isso me fez pensar que tudo isso valia a pena. Que, apesar de eu estar nessa situação absurda, totalmente fora dos meus planos e da minha profissão, não seria em vão.
Eles eram uma família, e eu faria tudo ao meu alcance para que eles tivessem um final feliz, mesmo não fazendo parte dele.
Dei risada quando, ao entrarmos em casa, Thales desferia socos no ar, os braços pequenos tentando reproduzir uma cena de luta que, segundo ele, era a melhor do filme inteiro.
— E aí o herói faz assim, ó! — ele girou o braço e quase acertou o vaso da entrada.
— Thales, cuidado! — Vinícius segurou o vaso com um reflexo que me surpreendeu.
— Desculpa. — Thales nem pareceu constrangido. — Mas pai, você viu? Quando ele saltou do prédio e usou o escudo assim—
— Vi. — Vinícius assentiu com uma seriedade que deixava claro que ele não tinha entendido metade do que estava acontecendo na tela, o que deixava tudo ainda mais fofo.
Droga. Por que ele tinha que ser assim? Por que não era simplesmente um CEO cuzão na maior parte do tempo? Seria tão mais fácil odiá-lo.
Tentei ignorar a presença imponente dele no cinema, a fragrância que invadia meus sentidos e me fazia sentir saudade de todo o resto. Do toque, da pele quente e firme sobre a minha. Da dureza dele por mim, dentro de mim. Ou simplesmente da ternura que ele parecia se permitir mostrar somente comigo e com Thales.
Eu sei, lá estou eu me iludindo de novo.
Mas era irresistivelmente adorável vê-lo com a testa franzida, completamente perdido no meio do filme de heróis com mil efeitos especiais, dando o seu melhor pra ainda tentar entender a trama no meio do caminho, enquanto Thales, empolgado, gesticulava e apontava pra tela.
Em meio a murmúrios de “aham”, pra concordar com o menino, e pedidos pra que ele falasse mais baixo e não atrapalhasse as pessoas da sessão, eu me permiti esquecer que aquela alegria tinha prazo certo pra terminar.
Mas agora estávamos de volta à realidade.
Coloquei Thales pra dormir enquanto ele ainda tentava me explicar, já deitado, de olhos pesados, as motivações do vilão. Concordei com tudo, arrumei o cobertor e ele adormeceu no meio de uma frase sobre o terceiro filme da franquia, que segundo ele era o melhor de todos. Fiquei parada na beira da cama por alguns segundos, não querendo que o momento terminasse, antes de sair na ponta dos pés e fechar a porta com cuidado.
No quarto, tirei o casaco, joguei na cadeira e fui até o espelho tirar o brinco. Meu cabelo era impossível de manter arrumado, mas hoje estava de parabéns. Não era à toa que algumas pessoas me olharam mais de uma vez na fila do cinema.
Mas a expressão que me recebia de volta no reflexo me surpreendeu. Eu tinha me divertido. Estava feliz, apesar de tudo.

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