Eu estava ferrado.
Por que eu não parava de pensar na Bela?
Eu sabia que o que a gente estava vivendo era único — diferente, pra dizer o mínimo. Uma situação peculiar que, se não fosse pelas circunstâncias improváveis, eu nunca estaria vivendo.
Fato é que esse acordo tinha sido a melhor coisa que tinha me acontecido, porque só por causa dele eu tive a oportunidade de me relacionar com alguém como ela.
Eu não podia ser hipócrita e dizer que, se não fosse obrigado a dividir a casa com Bela e ter sido forçado a viver situações mais íntimas, eu teria me relacionado com ela.
Ela era feia — isso é verdade. Pelo menos feia para a maioria das pessoas. O cabelo dela estava sempre bagunçado, os óculos escondiam a beleza dos olhos, as roupas também não ajudavam… mas eu não a via mais assim.
Eu sabia que ela não era uma mulher bonita só por dentro — embora, por dentro, fosse uma das melhores pessoas que eu tinha conhecido na vida — mas por fora também.
Sim, ela era bonita.
Os olhoa dela transmitiam uma pureza e uma ternura ao mesmo tempo. Uma sensação de aconchego e bondade que eu nunca tinha sentido na vida. E depois de ter transado com ela, de ter conhecido um outro lado… um outro olhar, seu corpo…
Porra, não conseguia tirar isso da cabeça. Nem o cheiro da pele. Nem os barulhinhos que ela emitia quando eu estava dentro dela.
Se concentra, Vinícius!
Olhei pro amontoado de papéis em cima da minha mesa. Eu tinha que me concentrar, ser responsável, descobrir de uma vez por todas o que estava acontecendo naquela filial. Jonas não era esse cara que fingia ser. Eu sabia que aquele sem-vergonha estava escondendo alguma coisa.
O jeito que ele tinha ficado nervoso quando eu perguntei e pedi aqueles dados todos não me cheirava bem.
Passei o restante da manhã estudando a fundo aqueles relatórios, até que percebi uma falha: as contas não batiam. Os insumos estavam superfaturados.
Eu precisaria convocar uma reunião com todos os fornecedores. Ia jogar na mesa os valores das tabelas pra descobrir quem tinha forjado e inflado os preços. Não era uma coisa estrondosa, não… mas quando comprado em grandes quantidades dava um valor preocupante.
Algum desses fornecedores estava passando um preço inflado. Era uma maneira de superfaturar e embolsar a diferença junto com Jonas.
Analisei o restante dos dados e percebi que o problema afunilava. Provavelmente eu teria que investigar melhor com os fornecedores de insumos. Eram quantias grandes diluídas em valores menores — e era justamente aí que o esquema fazia mais sentido.
Eu estava em paz fazia muito tempo na minha sala — e já estava começando a achar estranho — quando a porta se abriu e Karina entrou sem nem avisar.
Claro. Tava demorando.
Karina se aproximou de mim com um sorriso nos lábios. Eu sabia que, mais uma vez, ela ia encher o saco, se aproximar demais, querer ficar encostando em mim.
Veja bem, não é como se eu me ofendesse com o toque de uma mulher. Eu sabia me defender, sabia me esquivar… mas acontece que Karina não desistia. Nunca. Há anos!
Ela ficava fazendo essa mesma coisa, e eu não iria cair. Até porque não tinha interesse nenhum nela — muito menos agora.

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