Saí do escritório do Vinícius com a sensação de estar sonhando acordada. Era patético, eu sei, mas era mais forte do que eu. Temia que podia ser tarde pra mim, e meus planos de não me envolver estavam indo de mal a pior.
Mas não tinha como me culpar, tinha? Era a primeira vez que eu estava vivendo esse tipo de sentimento. Na verdade, a primeira vez em que, aparentemente, eu não sentia isso sozinha.
Era tão absurdo cogitar que o Vinícius sentia algo de volta por mim que era vergonhoso sequer pensar sobre isso. Mas era assim que eu me sentia… e com cada gesto que ele tinha comigo, essa ideia só crescia dentro de mim.
Vai com calma, Bela. Não deu nada certo da última vez.
Ajeitei a ecobag no ombro, ajustei os óculos que, claro, já tinham escorregado, e dobrei o corredor em direção ao elevador.
Foi quando quase dei de cara com a Karina.
Dizer que ela estava impecável era me repetir.
— Nossa, sempre desafiando a moda. — ela disse, os olhos me examinando de cima a baixo com uma lentidão calculada.
O meu look atual talvez fosse demais pra vibe monocromática bege que ela estava vestindo hoje. Minha blusa floral estampada em laranja e rosa e minha calça de linho verde-musgo, com um bordado de borboletas na barra, eram uma ofensa pros olhos dela.
Bom saber que, de alguma forma, eu também sabia torturá-la.
Pouco tempo atrás, esse olhar teria me feito sentir inferior, duvidar de mim mesma. Hoje, eu não poderia ligar menos pra opinião dela.
E não era só porque eu tinha passado a me sentir desejada, mas porque eu já tinha cansado desse tipo de gente que se acha superior aos outros só porque não tem personalidade suficiente pra vestir uma roupa mais colorida.
Tá bom… bastante colorida. Fazer o quê? Eu gostava. O mundo que lidasse com isso.
— Obrigada — respondi, com uma leveza que surpreendeu até a mim. — Eu também acho. Tenho um talento natural pra isso.
Ela piscou, ligeiramente desconcertada.
— Eu só ia dizer que talvez, na sua posição, fosse interessante... não sei, causar menos impacto visual. Discrição, sabe? Especialmente quando você frequenta ambientes como esse.
— Ambientes como esse. — Repeti devagar. — Você quer dizer a empresa em que meu noivo é CEO?
Meu Deus. Eu mal tinha transado com o CEO gostosão e já estava dando carteirada. Eu era feia, ia ser forçar demais ser desumilde também… mas a expressão de surpresa da Karina fez valer a pena a arrogância.
Só dessa vez. Que mal faria?
— Eu quero dizer que existe uma imagem a ser mantida. — O sorriso dela voltou, mais afiado. — A Lotus tem uma estética.
— Entendo. — assenti. — Mais alguma opinião não solicitada pra me dar?
Eita. Eu tava demais.

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