Ela ficou me olhando com uma expressão que me confundiu um pouco. Era algo que eu achava fascinante nela. Muitas vezes não sabia qual seria a reação, ela não era previsível. Costumava mudar de assunto sem avisar, fazer uma piada e levar tudo na esportiva, com coisas muito sérias. Eu realmente esperava que esse fosse o caso agora.
— O Márcio se confundiu, né? — ela perguntou, sem muita convicção. — Digo… me confundiu com outra pessoa.
Fiquei em silêncio sem saber como disfarçar. Não queria mentir pra ela e logo em seguida, Isabela percebeu.
— Então é verdade? — Isabela me olhou de frente. — Vinícius... que história é essa?
Merda.
Apertei os dedos na gravata, puxei levemente o nó pra baixo. Aquela maldita gravata… afrouxei só o suficiente pra respirar. Precisava escolher as palavras com muito mais cuidado do que o Márcio tinha escolhido as dele.
— Foi ideia do Márcio — disse, devagar. — Ele pensou que talvez fosse interessante você participar da nova campanha.
Isabela abriu a boca, surpresa.
— Campanha nova — ela falou, por fim. — Da Beleza Verdadeira?
Assenti com a cabeça. Ela soltou uma risada irônica.
Me aproximei, peguei a mão dela antes que ela desse um passo pra trás, antes que eu perdesse a oportunidade de me explicar.
— Eu não te falei nada antes porque nem pretendia fazer essa proposta — disse, tentando soar calmo, o que era consideravelmente difícil com ela olhando pra mim daquele jeito. — Foi o Márcio que ficou insistindo.
— Imagino.
A voz saiu baixa e magoada. Aquilo doeu mais do que qualquer xingamento.
— Bela... você tá brava comigo?
Ela franziu levemente o cenho, considerando. Depois disse:
— Vinícius... o que você e o Márcio ficam falando sobre mim? Pelas minhas costas?
Não esperava por essa pergunta. E dessa vez tive que mentir porque se ela soubesse o que Márcio dizia sobre ela, jamais iria me perdoar.
— Nada... nada importante. — Gaguejei um pouco, e soube que seria pouco convincente. — Essa ideia da campanha surgiu porque estávamos desesperados com as vendas baixas da última coleção, e então o Márcio pensou—
— Que seria ideal usar sua noiva feia pra alavancar as vendas?
A frase saiu sem raiva, dita com uma naturalidade de quem já estava acostumada a pensar assim de si mesma. De que as pessoas pensassem isso dela… e era isso que tornava tão difícil de ouvir.
Porque ela não estava errada. Era isso que o Márcio tinha pensado, foi isso que ele disse, quando apareceu na minha sala com mais uma ideia genial.
Senti o nó na garganta apertar.
— Sendo bem honesto, não me interessa o que o Márcio pensou. — peguei o rosto dela nas mãos, com cuidado. — Só o que eu penso.
Ela não se afastou. Isso era alguma coisa.
Senti a resistência dela diminuir um pouco. Os ombros relaxaram, o olhar ficou mais doce.

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