A audiência tinha sido ruim, mas não tão ruim quanto eu esperava, considerando tudo o que vinha acontecendo nos últimos tempos — em que até as coisas que eu já esperava que dessem errado conseguiam ser inacreditavelmente piores.
Sair da conciliação sem um acordo já era previsível. O advogado da Valéria, inclusive, era bastante combativo; numa situação como a minha, era quase impossível a gente chegar num acordo numa fase tão inicial do processo.
Ao menos, Valéria entendeu que os roxos do Thales não tinham a ver comigo, e sim com o bullying na escola. Não teve mau caratismo em usar isso contra mim como prova.
Estacionei o carro na garagem e percebi que as luzes estavam apagadas, exceto a luz do quarto de Isabela. Conseguia ver, através da penumbra da cortina, que ela ainda estava acordada. Eu olhei o relógio no painel do carro e vi que já passavam das 23hrs.
Entrei em casa fazendo o máximo de silêncio pra não acordar o Thales mas não resisti à curiosidade de ver o que Isabela estava fazendo acordada.
Tá, talvez não fosse só curiosidade. Talvez fosse… eu estava com saudades dela. E era estranho, eu não estava acostumado com esse tipo de sentimento.
Bati de leve na porta. Isabela não demorou pra abrir.
Eu percebi que ela tinha aquele sorriso típico de quando estava trabalhando em um dos seus projetos artísticos. Ela me pegou pela mão pra que eu entrasse logo e começou a me mostrar o quadro que tinha feito para a nova campanha.
Caramba! Já sabia que ela era boa, mas ela era muito boa mesmo. Não só na habilidade de desenhar, mas na combinação da paleta de cores e na identidade do que ela queria passar.
Era incrível.
Talvez fosse algum superpoder que só artistas como ela possuíam.
Sem exagero, pra mim, a imagem passava cheiro. Se o perfume principal tivesse que ser traduzido em uma imagem, com certeza seria essa.
— E aí? — Isabela perguntou, com um sorriso meio inseguro, percebendo que eu estava olhando fazia um tempo sem falar nada.
— Bela… eu não sei nem o que dizer. Tá perfeito. Maravilhoso.
— Sério? — ela me perguntou, sem acreditar, muito insegura.
Ela tinha um talento único. E olha que eu já tinha feito muitas entrevistas com designers e tinha contratado os melhores do país. Nenhum deles foi capaz de traduzir com tanta personalidade uma identidade visual para as nossas campanhas como a Bela fez em poucas horas, de forma descompromissada, usando um pincel e tintas que me pareciam das mais simples e baratas.
— Sério. Nunca vi nada parecido.
De repente, me veio uma raiva, porque uma mulher como ela, com o talento que tinha, merecia estar em um posto digno, merecia ser reconhecida por seu talento. E eu tinha sido apenas mais uma dessas pessoas que pouco se importaram pra isso.
Me aproveitei da condição social, da aparência dela e do desespero pra conseguir uma vaga.
Eu fui uma dessas pessoas que tirou Bela da vocação principal e se aproveitou disso.
Mas eu estava disposto a mudar. Acho que já tinha passado da hora dela ter sua chance.

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