— Eu cheguei mais cedo hoje — Marina disse, sem parar de andar. — Venho fazendo isso desde o incêndio.
Concordei com a cabeça, batendo o lado da caneta na mesa. Não sabia quando tinha começado a fazer aquilo. Só notei quando o barulho foi ficando mais alto, consequência da minha ansiedade, que fazia com que eu batesse a caneta cada vez mais forte na mesa.
Marina andava de um lado pro outro na minha frente, os braços cruzados sobre o jaleco, o olhar pra baixo. Eu deixei ela falar. Conhecia Marina o suficiente pra saber que ela não interromperia o dia de ninguém sem motivo.
— Quando cheguei, a Lotus parecia vazia. Mas tinha vozes no corredor. — Ela parou por um segundo, como se precisasse organizar a própria memória. — No início achei que era alguém da segurança que tinha descido pra tomar um café. Mas as vozes foram ficando mais acaloradas. Fui com cuidado até lá.
Parei de bater a caneta e a deixei parada em cima do bloco de papel. Marina continuou:
— E aí eu vi um vulto saindo da sala do Márcio. Só que não parecia ser ele. — Ela me olhou de frente. — Parecia ser uma mulher.
— Você falou pra polícia?
— Não.
— Por quê? Isso é importante!
Ela voltou a andar. Mais devagar agora.
— Porque eu não tinha certeza. Se fosse um mal-entendido, eu complicava a situação do Márcio sem necessidade. Por isso vim falar só pra você.
Me levantei e cheguei perto dela.
— Você tentou acessar as câmeras?
— Tentei. — Ela parou no centro da sala. — Quer dizer… pensei nisso só depois de algumas horas, quando ouvi o grito da Roberta e me dei conta da gravidade da situação. Mas a polícia estava lá exigindo as gravações. Não consegui ver nada ainda.
Peguei o telefone fixo e disquei no ramal da segurança. Expliquei o que precisava. O cara demorou um pouco, mas passou o usuário e a senha. Anotei no bloco ao lado do teclado e abri o sistema.
Fui procurando as câmeras por setores até chegar nas do andar do Márcio. Selecionei a data e ajustei o horário, fui voltando no tempo, assistindo ao corredor vazio, os ângulos do corredor principal, a entrada do andar.
Então parei. Me atentei a algo que me fez travar.
— Não é possível.
Marina se aproximou até ficar do meu lado.
— O que foi?
Apontei pra tela.
— Olha o marcador de tempo.
Ela ficou em silêncio, os olhos percorrendo os números no canto da imagem. Depois de alguns segundos, abriu a boca em um O, surpresa.
— Alguém deletou meia hora de filmagem — completei.
Marina me olhava incrédula. Percebi que o susto fez ela empalidecer. Passei a mão pelos cabelos e afrouxei a gravata.
— Quem seria capaz de algo assim?
Marina demorou pra responder e, quando a voz finalmente saiu, estava frágil e baixa.
— Não sei. Mas seja quem for, é um dos nossos. E sabe muito bem o que tá fazendo.
Ficamos sem falar nada depois disso, por vários minutos. O pânico entre nós era quase palpável. Alguém queria acabar com a Lotus, e era alguém com quem convivíamos, com quem trabalhávamos e em quem deveríamos confiar. Não tinha outra alternativa.

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