Vinícius tinha ido embora fazia pelo menos meia hora quando me lembrei que eu era um ser humano funcional e que talvez valesse a pena levantar da cama. Por sorte, hoje Thales entrava mais tarde na escola. Era uma sexta-feira antes da apresentação e a maioria estava indo mais pra ensaiar do que pra ter aula mesmo.
Fiquei ali mais um pouco, enrolada no lençol que ainda cheirava a ele, provavelmente fazendo cara de idiota apaixonada, coisa que tinha prometido a mim mesma que não faria.
Ao longo desse relacionamento falso, eu tinha me imposto algumas regras mentais, me proibindo disso e daquilo, como se de alguma forma fosse garantia de me proteger contra o inevitável. E aqui estava eu agora, completamente rendida e prestes a desistir de lutar contra esse sentimento.
Regra número alguma coisa: não ser patética a ponto de cheirar o lençol com o perfume dele, você é melhor que isso.
Eu não era melhor do que isso, mas tá bom. Hora de reagir.
Me levantei, peguei meus óculos na mesinha ao lado da cama e fui pro banheiro me arrumar pra mais um dia. O espelho me devolveu exatamente o que eu esperava: cabelo caótico, algumas marcas de travesseiro na cara, por que não? Mas tinha algo diferente também. Eu tinha um sorriso idiota que não adiantava tentar fazer sumir, era de felicidade genuína. Um sorriso de quem foi amada a noite inteira.
Tomei banho, me vesti com uma calça jeans desbotada com desenhos de gatinho que eu mesma tinha customizado e a blusa laranja que o Juliano chamava de “crime contra a humanidade”.
Acordei Thales e desci pra cozinha pra preparar o café da manhã pra ele. Resolvi fazer o favorito dele: pão com Nutella.
— Bom dia — falei, abrindo a geladeira, quando avistei o menino chegando na cozinha com um mangá na mão.
— Mhm — ele respondeu, sem tirar os olhos da página.
A Inês tinha saído mais cedo pra uma consulta médica e a cozinha estava estranhamente silenciosa. Foi quando meu celular começou a tocar em cima do balcão. Me apressei em olhar; era Vinícius.
— Bela. — A voz dele estava tensa. — Você falou com a Marisa hoje?
Estranhei a pergunta.
— Não. Depois que demos férias pra ela, ela não me procurou mais. Por quê?
— Aconteceu uma coisa aqui na Lotus. — Ele fez uma pausa. — O Jonas foi encontrado inconsciente no segundo andar esta manhã.
Tudo naquela frase parecia absurdo. Jonas? Inconsciente?
— Como assim? Ele desmaiou?
— Não, Bela. Inconsciente porque alguém bateu na cabeça dele várias vezes com algum objeto. — Vinícius parecia alterado, assustado, como poucas vezes antes. — Ele tá no hospital. Vivo. Mas tá desacordado ainda.
— O que ele tava fazendo aí? — perguntei, me afastando da cozinha pra Thales não ouvir, controlando o tom de voz. O menino parecia completamente alheio, lendo e comendo a torrada. — A reunião com os fornecedores não era só semana que vem?
— Não sei. Esse cara tá metido em coisa pior do que a gente imagina… e é exatamente por isso que tô ligando. Eu preciso que você entre em contato com ela agora. Confirma que a Marisa tá segura, tá bom?
— Sim. Vou fazer isso já.
— Bela…
— Que foi?
— Não deixa o Thales ver as notícias na internet nem na TV. Esse escândalo vai estar em todos os lugares. Prefiro explicar pra ele quando chegar em casa, com calma.
Olhei pro menino por cima do ombro. Ele continuava na leitura, concordei e desliguei o telefone.
Abri o W******p em seguida e fui no contato da Marisa.

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