Fiquei olhando pro cartão do delegado.
Eu sabia que deveria ligar. Deveria ter feito isso muito antes, desde o momento em que percebi os trechos da câmera de segurança deletados, na verdade desde quando conversei com ele nesta manhã.
O problema é que eu não queria mais escândalos para a Lotus e, nessa tentativa de controlar a imagem da empresa, acabei deixando as coisas se complicarem ainda mais. Era só uma questão de tempo até a polícia perceber que existiam cortes nas gravações, e isso nem era o que mais me preocupava naquele momento. O que realmente pesava era tudo o que eu tinha omitido sobre Jonas.
Eu teria que dizer que sabia há alguns dias que Jonas era um problema dentro da empresa, que existiam irregularidades acontecendo na filial e que uma funcionária tinha procurado a minha noiva com medo dele. Teria que admitir que, mesmo assim, não fiz nada. Não o demiti, não denunciei, não expus o que aconteceu. Escolhi esperar, reunir mais provas, evitar qualquer decisão precipitada que pudesse abrir margem jurídica contra a Lotus.
Enquanto eu fazia isso, Jonas apareceu desacordado no prédio da Lotus, com a cabeça aberta por tantos golpes.
Bom trabalho, Vinícius. Parabéns.
Afrouxei a gravata num gesto automático, tentando diminuir a sensação de sufocamento. O gesto era tão comum que já tinha se tornado parte de mim. Só que dessa vez isso não foi o suficiente, nada parecia ser suficiente. A sensação de que o pior ainda estava prestes a acontecer não passava. Arranquei a gravata e joguei longe, sem me preocupar onde cairia. O tecido bateu na mesa e caiu no chão.
Virei de costas, tentando controlar a respiração, e pouco tempo depois reconheci o som dos passos antes de olhar, o ritmo firme e controlado que por anos me deixava apavorado quando eu o ouvia nos corredores de casa, porque nunca acabava bem.
Ele fechou a porta com cuidado e parou no meio da sala, analisando o ambiente sem pressa. O olhar passou pelo cartão na mesa, pela gravata no chão e depois voltou para mim, como se estivesse organizando mentalmente tudo o que julgava necessário dizer.
— Você ainda não fechou a filial de São Carlos.
Mantive o tom neutro, mesmo sabendo que não adiantava.
— Tenho tudo sob controle, pai.
Ele soltou uma risada curta, cheia de ironia.
— Você nunca teve nada sob controle, Vinícius.
— Tenho uma reunião amanhã — respondi, escolhendo as palavras com cuidado — que deve esclarecer essa situação.
— Esclarecer — ele repetiu a palavra com escárnio. — Vai esclarecer quem agrediu um gerente dentro da empresa?
Desviei o olhar por um instante.
— Eu sabia — ele continuou, mais devagar — que você não estava preparado. Mas a sua incompetência vai além de qualquer limite. Você vai levar a empresa pro buraco… de um jeito que vai ser impossível de recuperar.
Respirei fundo antes de responder, eu não queria perder o controle perto dele. Ele não merecia esse gostinho.
— Tem alguém dentro da Lotus armando contra mim. Você sabe muito bem que o incêndio foi criminoso. E Jonas estava envolvido em coisa errada..
Ele me observou em silêncio por alguns segundos, e houve um momento breve em que eu achei que ele fosse considerar o que eu estava dizendo.
— E daí? — ele respondeu. — Mesmo que seja verdade, você continua sendo o responsável. Se algo acontece dentro da empresa, a responsabilidade é sua! A culpa é sua! Seu tempo tá acabando, Vinícius. Eu deveria tirar você desse escritório agora mesmo, tomar de volta o meu lugar. Mas vou manter a minha palavra. Vou esperar o resultado da próxima campanha.
— Eu agradeço, não vai se arrepender — falei, olhando pra ele, sustentando o olhar.
— Prove que eu estou errado, filho, pela primeira vez na vida.
E saiu dando a última palavra, como adorava fazer.
*
— Imagino que a conversa tenha sido ótima.

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