De todas as coisas que eu esperava passar na vida, essa era a última: ver o meu chefe — na verdade, noivo, mesmo que de fachada — de mãos dadas com outra mulher.
O gesto de Marina era delicado, como se quisesse consolar, mas também de quem estava tomada pelo momento. O olhar dela era de admiração, com uma pontinha de tristeza.
Vinícius foi o primeiro a me ver parada na porta. Ele largou a mão de Marina na hora, como se tivesse levado um choque. O rosto dele ficou vermelho, depois branco, depois uma mistura bizarra dos dois tons. Marina sorriu, sem disfarçar o constrangimento, mas não desviou o olhar.
— Oi, Bela — ele disse, e a voz saiu meio rouca. — Aconteceu alguma coisa? — fez uma breve pausa — é a Marisa?
— Precisamos conversar — falei, fingindo não ligar de ter visto Vinícius e uma mulher linda de mãos dadas.
Marina se recompôs rápido, ajeitou o jaleco e sorriu pra mim daquele jeito sincero que só ela sabia fazer. Era impossível odiá-la, mesmo se eu quisesse.
Me aproximei, sentindo que o clima tinha ficado estranho, e Vinícius já parecia pronto pra inventar alguma desculpa, então fui direta:
— A Marisa não tá mais no hotel.
Vinícius arregalou os olhos.
— Como assim?
— Liguei pra lá. Ela fez check-out ontem à noite.
O rosto dele mudou, tomado de preocupação. Marina franziu a testa, se aproximando de mim.
— Tentou ligar pra ela? — Marina perguntou.
— Sim. Ela não atende o celular, a mensagem nem chega. Não consigo falar com ela de jeito nenhum.
Vinícius estava visivelmente estressado, porque começou a passar a mão pela nuca e contrair a mandíbula. Notei que estava sem gravata. Tentei não pensar no pior e não associar isso à cena anterior.
— Preciso perguntar — falei, encarando os dois. — Vocês acham que ela pode ter alguma coisa a ver com o que aconteceu com o Jonas?
Ficamos em silêncio por alguns momentos.
Marina foi a primeira a responder:
— Não acho que ela seria capaz disso, mas… o medo faz a gente fazer coisas impensáveis.
Vinícius ficou olhando pro nada, os olhos fixos em um ponto qualquer.
— Se ela não fez, pode estar em perigo — disse, sério. — Jonas era obcecado por ela. E se foi atrás da Marisa?
Meu estômago embrulhou.
— Você acha que ela tá fugindo dele? — arrisquei.
— Ou de outra pessoa… — disse Vinícius, a voz baixa. — Da polícia.
O que mais me doía era pensar que, de alguma forma, eu podia ter sido a responsável por tê-la colocado em risco. Eu que incentivei, que prometi proteção, que jurei que tudo ficaria bem se ela confiasse em mim.
— E agora? — perguntei.
Vinícius respirou fundo.
— Agora a gente conta tudo pro delegado. Não temos escolha.

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