Sempre gostei de pensar que eu era responsável. Pelo menos, até hoje, eu fui.
Nunca dei trabalho pro meu pai, sempre fui a melhor aluna da classe, nunca me meti em confusão. Minha adolescência foi tranquila, nunca passei pela fase da rebeldia. Talvez a minha feiura já fosse rebeldia suficiente pra sociedade, não sei dizer.
Fato é que agora, eu não me reconhecia. Parecia que estava vivendo a minha adolescência pela primeira vez. Eu ainda não acreditava que tinha transado com o meu chefe no escritório.
Provavelmente alguém deve ter ouvido, porque, quando eu saí de lá, as pessoas cochichavam, se entreolhavam e davam risadinhas. Fiquei roxa de vergonha, mas não vou mentir: faria tudo de novo.
Marina não teve sucesso em falar com Marisa, não tinha conseguido encontrá-la em lugar nenhum. Ninguém sabia nada sobre ela.
Eu comecei a ficar muito preocupada — e muito culpada também — porque, afinal de contas, fui eu quem convenceu Vinícius a não avisar a polícia. Ainda tentei aliviar minha culpa pensando que normalmente só começam a procurar pessoas desaparecidas depois de 24 horas, e teoricamente, eu ainda estava dentro do prazo.
Mas hoje era sábado, dia da apresentação do Thales. Eu não teria tempo suficiente pra me dedicar a encontrá-la como estava fazendo ontem.
Eu tinha que dar um jeito. De hoje não podia passar.
Ajeitei o cabelo do jeito que dava, tentei colocar uma roupa ligeiramente mais discreta, porque, afinal de contas, a estrela tinha que ser o menino — e não a babá feia, madrasta de mentira, roubando todas as atenções e tocando o terror com as minhas roupas coloridas.
Então coloquei o que encontrei ali um pouquinho mais discreto: uma calça jeans e uma camiseta branca com algumas flores estampadas, em tons mais desbotados. Tinha que servir.
Enquanto preparava o café da manhã, repassei mentalmente todas as decisões ruins que tomei nas últimas semanas. E, olha… não eram poucas.
Por enquanto, meu único objetivo era sobreviver até ser capaz de encontrar Marisa — de preferência ainda hoje — pra não ser a responsável por causar um escândalo ainda maior pra Lotus e principalmente não trair a confiança do Vinícius.
Thales entrou na cozinha com o cabelo molhado e a cara de quem preferia ser atropelado por um ônibus do que cantar no festival da escola.
— Tem certeza que eu preciso ir de camisa social? — perguntou, como se fosse a coisa mais absurda do mundo.
— Na verdade, acho que você deveria se vestir do jeito que se sentir melhor. — Coloquei a xícara de achocolatado pra ele, que ignorou solenemente.
— Todo mundo vai de roupa social.
— Eu sei que essa frase vai te irritar, mas eu vou falar mesmo assim: você é todo mundo?
Thales revirou os olhos, mas acabou dando risada a contragosto.
— Quer que eu te ajude a escolher? — perguntei.
Não que eu fosse um exemplo de ajuda fashion, mas o coitado só tinha a mim.
Thales não respondeu, mas eu percebi que ele queria, sim, que eu ajudasse.
O problema é que, de todas as tarefas do mundo, montar um look pra um astro pop infantil era provavelmente a que eu menos tinha qualificação pra fazer.
Subi com ele pro quarto e fiquei olhando enquanto Thales desenterrava do armário uma camiseta preta do Batman, toda desbotada, e uma jaqueta jeans que provavelmente compraram pra ele usar daqui uns meses, porque ainda estava um pouco grande.
Mas, de uma forma muito estranha, combinava. Pelo menos pra mim, carregava bastante personalidade. Agora sim Thales estava se expressando pro mundo.
— Eu gostei — elogiei, de forma sincera.
Ele se olhou no espelho e fez uma careta, inseguro.

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