— Tá faltando explicar os dezessete por cento de diferença, Daniel — falei, cruzando os braços sentado na mesa de reunião. A sala, clara demais, estava cheia de engravatados e fornecedores.
Daniel — o mesmo que peguei trocando sorrisos com a Bela na nossa festa de noivado — estava sentado na cabeceira oposta da mesa oval. Ele tinha um sorrisinho presunçoso, como se sentisse prazer em me desafiar. No projetor estava a apresentação dos slides dele, mas o sujeito nem perdia tempo olhando… o sabichão tinha tudo na ponta da língua.
— Os dezessete por cento vêm do frete, CEO — Daniel respondeu sem hesitar, com ironia ao falar “CEO”. — Mudou a tabela da Petrobras, lembra? O diesel subiu.
Márcio, sentado ao meu lado, parecia decoração. Ele e nada eram a mesma coisa, e eu não sei por que ainda insistia em levá-lo comigo para as reuniões. De canto de olho, notei que mexia no celular — mais desinteressado, impossível.
Essa reunião tinha sido organizada às pressas e da forma mais sigilosa possível. Eu não queria que meu pai soubesse a tempo de interferir. Queria averiguar as informações eu mesmo, começar essa investigação interna sem o dedo dele — em parte pra provar que era capaz, em parte porque meu pai não tinha o menor interesse em salvar essa filial ou qualquer outra que desse prejuízo. Pra ele, não eram pessoas perdendo o ganha-pão da família, eram estorvos dos quais queria se livrar o mais rápido possível pra fazer mais dinheiro.
Quanto mais eu analisava os relatórios, menos eles faziam sentido. Tinha alguma discrepância ali, coisa fina, difícil de pegar — e só podia estar em produtos comprados em grande quantidade com valores baixos. Jonas superfaturava nas compras, isso era óbvio. O que não estava claro era pra quem ele repassava a diferença.
— Me fala uma coisa — falei, folheando a planilha com gestos contidos, tentando demonstrar autocontrole. — Por que a unidade de São Carlos paga mais caro nos mesmos óleos do que a matriz? O contrato é nacional, não é?
Daniel respirou fundo e abriu um sorriso de quem já tinha a resposta pronta. Insuportável pra caralho.
— São Carlos trabalha com lotes menores. O custo de envase encarece proporcionalmente.
— Não é o que diz o contrato — rebati, girando a folha na direção dele.
O fornecedor ajustou os óculos e apontou para a página seguinte.
— Com todo respeito, CEO, o adendo 3 especifica exceções regionais. Foi aprovado pelo jurídico da Lotus no trimestre passado.
Márcio, lembrando que deveria fingir se importar, se inclinou, examinou o documento e assentiu.
— Ele está certo, Vinícius. Tem a assinatura do Gutierrez aqui embaixo.
Senti o rosto esquentar e engoli em seco. A imagem de Daniel inclinado, perto demais da Isabela — e pior, fazendo ela rir — era irritante e não saía da minha cabeça.
Mas eu não podia misturar as coisas.
Porra, o que tava acontecendo comigo? Sempre fui profissional, sempre coloquei os interesses da Lotus em primeiro lugar, acima até das minhas próprias vontades...
— Vamos prosseguir então — falei, passando para o próximo item.
A reunião se arrastou em números e tabelas, cada fornecedor com sua versão impecável. Eu rabiscava contas na margem do relatório, mais pra aliviar a frustração do que pra chegar a algum lugar. O que quer que Jonas estivesse fazendo era mais complexo do que isso. Aquele filho da mãe ia me dar trabalho, mas eu ia descobrir o que ele tava tramando — e quem naquela sala estava com ele.
Resolvi pedir para que os fornecedores retornassem em uma nova reunião na semana que vem pra que eu continuasse a esmiuçar informações até descobrir o que estava acontecendo.
Quando a reunião acabou, só queria ficar sozinho. Não tive paciência pras gracinhas do Márcio nem pras conversas que nunca levavam a lugar nenhum.
E, além disso, tinha coisa mais importante — a apresentação do Thales. Se eu perdesse, ele nunca ia me perdoar. E a Bela, menos ainda.
No corredor, no caminho da minha sala, vi Daniel no elevador, falando ao telefone.
— Vou ter que ficar mais três noites aqui… Pois é. Adivinha? Capricho do CEO. Ele manda e a gente tem que obedecer.

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