“Ivy Collins”
A mansão parece diferente quando entro.
Nada aqui mudou. Os móveis estão no mesmo lugar, a luz entra pelas cortinas do mesmo jeito, o cheiro de lavanda permanece no ar…
Mas eu estou diferente, e isso é suficiente para fazer tudo parecer levemente fora do lugar, como um quadro torto que ninguém ajeitou ainda.
A Sra. Mallory aparece no corredor antes que eu feche a porta, me dá aquele olhar que não precisa de palavras e assente levemente, como se confirmasse algo que já suspeitava.
Assim que chegamos à sala, Liam aparece com um biscoito na mão e aquela inocência de quem não sabe metade do drama que estamos vivendo.
— Você demorou — diz, parando na minha frente com a testa franzida. — Onde estava?
Abro a boca, pensando numa desculpa convincente, mas a Sra. Mallory é mais rápida.
— Eu não te disse que ela estava na casa da Srta. Sophia? — fala, com aquela naturalidade de quem mente com bondade sem piscar.
— Disse — ele responde devagar, como se estivesse repassando a informação mentalmente. — Mas é que ela demorou muito.
— Demorei mesmo — concordo, me agachando na frente dele. — Saudade de mim?
— Mais ou menos — responde, dando de ombros, o que claramente significa sim.
Seguro o riso e beijo o cabelo dele.
— E o Oliver? — ele pergunta, olhando para trás de mim. — Por que ele ainda não voltou?
— Ele ainda está com a mãe dele — respondo, mantendo a voz firme. — Mas já, já chega.
Meu irmão me encara por um segundo, mastigando o biscoito enquanto decide se aceita ou não a resposta.
Por fim, assente.
— Tá bom — diz, virando as costas e se sentando no sofá com a mesma rapidez com que apareceu.
Fico agachada por um segundo depois que ele se afasta, soltando o ar devagar.
A Sra. Mallory espera até que ele se distraia com o desenho para se aproximar.
— Como o pequeno Oliver está? — pergunta, baixinho.
— Estável — respondo, me levantando. — Grave, mas estável. Os médicos disseram que as próximas horas vão definir muita coisa.
Ela fecha os olhos por um segundo, como uma oração silenciosa, e assente.
— Vai descansar, menina — diz, num tom que não aceita recusa. — Você está com uma cara que me preocupa.
Não rebato, porque ela está certa e nós duas sabemos disso.
Subo as escadas segurando o corrimão com força demais, sentindo cada degrau como se as pernas tivessem decidido cobrar as últimas horas de uma vez só.
O quarto está do jeito que deixei: cama desfeita, a janela entreaberta, a roupa que eu usava jogada na poltrona. Normal. Familiar.
Vou direto para o banheiro e abro o chuveiro no quente.
Fico debaixo da água por mais tempo do que o necessário, deixando o calor relaxar meus ombros, meu pescoço… cada lugar onde a tensão foi se instalando ao longo da noite.
O cheiro de hospital vai embora aos poucos, misturado à espuma do sabonete que escorre pelo ralo.


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