Em poucos minutos, estamos sentados à mesa, com uma pilha de panquecas suficiente para alimentar um batalhão.
Oliver devora a primeira com pressa, como se a Sra. Mallory não tivesse levado panquecas todas as vezes em que foi visitá-lo no hospital.
Liam come do lado dele, com chocolate até no queixo, enquanto discutem seriamente se dinossauros comeriam panquecas, se ainda existissem.
— Dinossauro come carne — Oliver diz, entre uma garfada e outra.
— Mas e se ele quisesse experimentar?
— Dinossauro não quer experimentar. Ele só quer carne, que enche o barrigão dele.
— Mas e se…
— Liam — Oliver interrompe, com a paciência de quem já explicou isso antes. — Dinossauro. Come. Carne.
Meu irmão considera por um segundo.
— Tá bom — ele cede, voltando para a panqueca. — Mas acho que o T-Rex ia gostar de panqueca de chocolate.
Oliver abre a boca, depois fecha e decide que não vale a energia. Mas, claro, o silêncio não dura nem cinco minutos, e logo os dois estão debatendo sobre algum planeta feito de panquecas.
O restante do café da manhã passa nesse ritmo.
Quando finalmente terminamos, ficamos na sala de estar, cada um aproveitando um tempinho com o pequeno astronauta.
Oliver circula por tudo, de pessoa em pessoa, como se estivesse fazendo o inventário de tudo que ficou parado esperando por ele.
Liam fica mais perto dele o tempo todo, como se quisesse garantir que o amigo não vai mais a lugar nenhum. Meu irmão tem cinco anos e já entende de lealdade melhor do que muita gente que conheço.
— Você finalmente vai poder descansar — Tiffany interrompe meus pensamentos, se sentando ao meu lado no sofá. — Vocês merecem, depois de tudo.
— É o que mais desejo, agora que tudo finalmente se resolveu — respondo, honestamente. — Mas valeu a pena, só para ver o Oliver bem.
Ela assente e toca meu joelho, sorrindo.
— Você foi incrível nesses dias, Ivy. Quero que saiba disso.
Rio, baixinho.
— Obrigada, Tiff.
Minha amiga cruza as pernas e logo mudamos de assunto, com ela falando sobre a empresa e como está trabalhando dobrado, graças à divulgação de um novo produto que merece o marketing à altura.
Aquele tipo de conversa que lembra que o mundo continuou girando enquanto eu estava parada num corredor de hospital.
Nossa conversa é interrompida alguns minutos depois, quando Lucas se vira para mim com as sobrancelhas franzidas.
— Você viu os meninos?
Nego com a cabeça, olhando para o canto da sala onde eles estavam. Depois, olho para o corredor. Silêncio.
E é exatamente esse silêncio que me preocupa, porque silêncio não é sagrado quando se tem duas crianças em casa.
Me levanto e Lucas vem atrás de mim. Percorremos o corredor até ouvirmos um murmúrio vindo do banheiro, que está com a porta entreaberta e a luz acesa.
— Tem certeza que tem que esfregar? — Liam pergunta.
— A enfermeira esfregava — Oliver responde, firme. — Mas ela usava uma coisa diferente.
— Sabão é pra lavar, então vai dar certo.
Fico parada por um segundo, olhando para a toalha na minha mão.
Quando desvio os olhos para Lucas, ele claramente está segurando o riso com as últimas forças.
— Nem pense nisso — murmuro, estreitando os olhos para ele.
— Não fiz nada.
— Até parece que você não ia…
Lucas não aguenta e começa a rir, balançando a cabeça.
— Eu sei que é errado, mas… — ele respira fundo, tentando se recompor. — Isso é muito a cara deles.
Solto o ar devagar, tentando manter a postura por mais dois segundos… e falho. O riso vem sem que eu consiga segurar.
— Meu Deus… — murmuro, passando a mão no rosto. — Não posso deixar esses dois sozinhos por cinco minutos.
— Pode, mas claramente não deveria — ele responde, ainda rindo. — Anda, vamos lá antes que eles decidam fazer outra besteira.
Finalmente paramos de rir e saímos do banheiro de mãos dadas. Quando chegamos à sala, Oliver já está contando para o avô o que estava aprontando.
Paro por um segundo, observando a cena.
Sei que o que eles fizeram foi errado e arriscado, mas há quinze dias, saí daqui correndo para o hospital, sem saber se Oliver ia voltar.
Agora ele está aqui, aprontando como sempre fez. Em casa. E isso é o suficiente.
É mais do que o suficiente.

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