Dois meses foram suficientes para a cicatriz deixar de ser um susto e virar uma história.
No começo, olhar para a barriga do Oliver fazia meu peito apertar. Ver ele fazer um movimento mais brusco me fazia prender a respiração, e toda noite virava uma sequência de checagens silenciosas, só para garantir que ele estava bem. Respirando.
Mas, aos poucos, o medo foi perdendo espaço.
Vieram as consultas, os retornos, os “está tudo dentro do esperado”. Depois, os “está ótimo”.
Os pontos foram embora, a pele começou a fechar melhor e a tal lacraia deixou de ser algo assustador para virar o assunto favorito dele.
Até hoje, Oliver conta para todo mundo que tem uma cicatriz em forma de lacraia na barriga, e Liam confirma tudo, levando o crédito pelo apelido.
E, de alguma forma, aquilo ajudou.
A cicatriz deixou de ser sobre o que quase aconteceu e passou a ser sobre o que não aconteceu.
Oliver ficou. E isso era tudo que importava.
— Falta muito? — ele pergunta, pela quarta vez em menos de vinte minutos, interrompendo meus pensamentos.
Me endireito na poltrona do jatinho e me viro para ele, do outro lado do corredor, claramente impaciente.
— Menos do que da última vez que você perguntou — Lucas responde, sem desviar os olhos do documento que está lendo. Aparentemente, o trabalho não para nem durante uma viagem em família.
— Mas quanto?
— O suficiente para você assistir a um desenho inteiro sem perguntar de novo, campeão.
Oliver considera por um segundo, como se estivesse avaliando a proposta, e acaba cedendo.
Liam, que estava quieto ao lado dele, olhando pela janela, cutuca o braço do amigo e aponta para as nuvens. Pelo menos isso é o suficiente para manter os dois em silêncio.
Lucas coloca a mão no meu joelho sem olhar para mim, e eu cubro a dele com a minha. Enfim, um momento nosso depois de tantas coisas.
Sem hospital. Sem medo constante. Sem aquela sensação de que tudo pode desmoronar a qualquer segundo.
Só… silêncio.
Ou quase.
Algumas horas depois, o avião pousa em Orlando.
O calor nos recebe assim que descemos, bem diferente do frio que ficou em Nova York.
Um carro já está esperando na pista, com o motorista ao lado da porta, pronto antes mesmo de nos aproximarmos.
— Bem-vindos de volta, Sr. Sinclair — ele diz, abrindo a porta.
Volta. A palavra não passa despercebida.
Lucas comentou que tinha uma casa aqui, quando Oliver teve a brilhante ideia de comemorar o aniversário na Disney, mas não disse que vinha com frequência.
Nem que existia um “de volta”.
Olho para ele, esperando algum comentário, mas Lucas apenas acena com a cabeça, cumprimentando o motorista.
Ele ajuda os meninos a entrarem primeiro. Depois, Lucas e eu.
Logo, o carro começa a se mover, saindo da pista privada e entrando na estrada. A paisagem muda rápido: placas coloridas, palmeiras e um céu limpo demais para parecer real.
Encosto a cabeça no banco, observando tudo pela janela.
Nova York já parece distante. Os últimos meses… também.
Lucas segura minha mão, entrelaçando os dedos nos meus, e aperta de leve.
Olho para ele.
— A gente vai ficar muito tempo aqui? — pergunto, baixo.
— O suficiente — ele responde, com um meio sorriso. — Para você não querer ir embora.
— Isso foi uma ameaça ou uma promessa? — rebato, levantando uma sobrancelha.
— Depende — ele diz, finalmente me olhando. — De quanto você vai gostar da casa.
— Vou gostar, com certeza — murmuro, sorrindo. — Porque vocês estão aqui.
Subimos as escadas, passando por um corredor amplo, até ele abrir uma das portas no final. Nosso quarto.
Grande, iluminado, com uma vista que pega boa parte da área externa da casa, incluindo a piscina que, com certeza, já está sendo analisada pelos dois lá embaixo.
Lucas fecha a porta e, pela primeira vez em muito tempo, não há pressa. Nem medo.
Só nós.
— Gostou? — ele pergunta, se encostando de leve na porta.
— Adorei — respondo, olhando ao redor.
Ele solta um riso baixo e se aproxima devagar.
— Dois meses — ele murmura, parando na minha frente. — E você não parou um segundo.
— Nem você.
— Então, acho justo compensar isso.
— E como você pretende fazer isso? — pergunto, levantando uma sobrancelha, já sabendo exatamente onde isso vai dar.
Ele não responde, só segura minha cintura e encurta a distância entre nós.
— Você vai descobrir mais tarde — diz, baixo.
— Melhor você cumprir essa promessa — murmuro, sentindo a pele arrepiar.
— Pode deixar, atrevida.
Ele se inclina para me beijar, mas para quando ouvimos passos rápidos no andar de baixo, seguidos de um quase grito.
— OLIVER, NÃO PODE CORRER!
Fecho os olhos por um segundo, rindo.
— A realidade chama, meu amor.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Babá Proibida do CEO