O silêncio que vem depois da palavra “Você” é tão denso que consigo ouvir o molho borbulhando baixo na panela atrás dele.
Fico parada na banqueta, com os braços ainda cruzados sobre a ilha, sentindo o calor subir pelo meu pescoço.
— Como assim?
A pergunta escapa antes que eu consiga segurar. Baixa demais para soar desafiadora, rápida demais para parecer despreocupada.
Blake não responde de imediato. Ele volta a se virar para o fogão, como se não tivesse acabado de soltar algo que claramente não deveria ser ignorado.
Mexe o molho com calma, como se estivesse apenas ajustando o sal e não… bagunçando completamente a lógica da conversa.
— Não faço parte do seu trabalho? — insisto, tentando recuperar algum controle. — Curioso. Porque, até onde eu sei, você foi designado justamente para me proteger.
— Fui — responde, simples.
— Então?
Ele desliga o fogo, prova o molho e só então se vira para mim novamente.
— Proteger você faz parte do trabalho — explica, como se estivesse dizendo algo óbvio. — Lidar com você não.
— Lidar comigo? — rebato, ofendida.
— Suas provocações. Suas tentativas de testar limites. Suas decisões impulsivas — enumera, sem pressa. — Nada disso estava no protocolo.
— Então ignora.
— Eu ignoro o que não representa risco.
— E eu represento risco agora?
Ele me encara por um segundo a mais do que o necessário.
— Mais do que deveria.
Abro a boca para retrucar, mas travo. Porque, pelo jeito que ele diz… não parece estar falando da cozinha.
Parece estar falando de mim.
O silêncio que se instala não é confortável. Nem um pouco.
Blake sustenta meu olhar por mais um segundo, até eu desviar os olhos primeiro, claro. Porque ficar encarando ele desse jeito parece… perigoso demais.
Ele vai até a pia e escorre a massa. Depois, mistura com o molho que fez com tanta facilidade e serve dois pratos, colocando um na minha frente.
O cheiro está maravilhoso, mas não vou admitir isso em voz alta, claro. Pego o garfo, espeto um penne e provo.
O molho tem gosto de alho que não virou carvão, tomate fresco e algo mais que não consigo identificar. Ervas? Um toque de pimenta? Não sei. Só sei que está delicioso.
— Está bom — admito, contra a vontade.
— Surpresa? — pergunta, pegando o outro prato e se sentando do outro lado da ilha, de frente para mim.
— Um pouco. Não esperava que guarda-costas soubessem cozinhar sem transformar a cozinha em zona de desastre.
— Sobreviver em lugares onde delivery não chega exige algumas adaptações.
Fico quieta por um momento, mexendo o macarrão com o garfo enquanto o observo discretamente.

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