Deito ao lado de Oliver na cama dele, observando as estrelinhas fluorescentes grudadas no teto.
Elas brilham fraquinho no escuro, formando constelações que ele jura serem “100% cientificamente precisas”.
Não parecem ser, mas… quem sou eu para desmentir um futuro astronauta?
— Ivy? — Ele chama, meio sonolento, finalmente.
— Oi, pequeno.
— Você acha que um dia vou mesmo pra Lua?
— Tenho certeza — respondo, sorrindo mesmo que ele não veja.
— E você vai comigo?
— Se me convidar… talvez eu vá.
Ele murmura algo incompreensível e se vira, abraçando o foguete de pelúcia. Poucos minutos depois, a respiração dele fica lenta.
Dormiu.
— Finalmente — sussurro, aliviada.
O presente da Sophia deixou o menino em modo turbo a tarde inteira. Montamos o foguete por horas, fizemos uma missão espacial improvisada, salvamos Marte…
Um caos. Mas um caos feliz.
Me levanto devagar, ajeito o cobertor sobre ele e saio do quarto sem fazer barulho.
Fecho a porta com cuidado e suspiro, encostando na parede do corredor.
Meu estômago ronca. Alto.
— Ótimo — murmuro, passando a mão no rosto.
Não almocei direito, porque a pizza com Sophia e Oliver foi mais “monitorar criança elétrica” do que comer.
No jantar, ele quis aproveitar que o pai chegou mais cedo. Como consequência, mal toquei na comida. Estava ocupada demais ignorando os olhares disfarçados de Lucas.
Agora estou morrendo de fome, mas já passa das 22h.
E Lucas provavelmente está lá embaixo no ritual de relaxamento dele: whisky, silêncio e zero paciência para invasores.
Respiro fundo.
— Não, Ivy. Hoje não — sussurro, balançando a cabeça. — Já tive emoções suficientes essa semana.
Entro no meu quarto, fecho a porta e vou direto para o banho. A água quente ajuda no cansaço, mas não na fome.
Saio, coloco o pijama, apago a luz e me jogo na cama.
O estômago reclama de novo, mas ignoro.
— Amanhã nós comemos — sussurro, puxando o cobertor até o queixo.
Fecho os olhos e, lentamente, o cansaço finalmente vence. Mas não por muito tempo.
Uma voz distante atravessa a escuridão, abafada, como se eu estivesse debaixo d’água.
— Ivy, você precisa ir — a Sra. Lawson repete.
Olho para ela, confusa, enquanto ajeito o vestido preto que parece preto demais. Apertado demais.
Tudo está errado hoje.
— Ivy, querida, você pode ir.
Balanço a cabeça, sentindo as lágrimas queimarem meus olhos.
— Não consigo.
— Você precisa se despedir dela — ela insiste, segurando meus braços. — Eu cuido do seu irmão, prometo.
Viro para trás e vejo meu irmão no sofá, encolhido, abraçando o boneco do Homem-Aranha. Seus olhinhos estão vermelhos, seu nariz está vermelho…
Tudo nele grita dor.
— Ivy, você vai trazer a mamãe para casa? — ele pergunta, com a voz embargada.
Engulo em seco, segurando meu choro. Preciso ser forte, não posso desmoronar na frente dele. Meu irmão já está sofrendo demais.
— Não, meu amorzinho — digo, secando suas lágrimas. — A mamãe finalmente está descansando.
Ele soluça mais forte.
— Agora somos só você e eu — continuo, passando a mão no cabelo dele. — Como a mamãe pediu, lembra?
Ele respira fundo, tentando ser forte, e então estende o boneco para mim.
Corro direto para a casa da Sra. Lawson, batendo na porta com força.
— SRA. LAWSON! SRA. LAWSON, O LIAM SUMIU!
A porta se abre, e ela aparece com o rosto tomado de preocupação.
— Ivy, querida, eu…
— Onde ele está?! — grito, desesperada. — Ele estava com a senhora! Onde ele está?
— O pai dele veio buscar — ela diz, quase num sussurro. — Há umas duas horas.
O chão some.
— O… o quê?
— O Ryan veio. Disse que ia levar o menino para morar com ele. Pegou as coisas e… foi embora, Ivy. Tentei te ligar, mas…
— NÃO! — grito, sentindo o corpo inteiro tremer. — ELE NÃO PODE! ELE NUNCA LIGOU PARA O MEU IRMÃO! ELE SÓ NOS FEZ MAL…
— Ivy…
— PROMETI QUE IA VOLTAR! — berro, caindo de joelhos. — Eu prometi…
A Sra. Lawson se abaixa ao meu lado, tentando me consolar, mas nada funciona.
Porque Liam sumiu.
E eu quebrei minha promessa.
— LIAM! — exclamo, me sentando na cama, ofegante.
Minha garganta arde quando finalmente acordo, com o coração disparado e as lágrimas escorrendo.
— Foi um sonho — sussurro, tremendo. — Só um pesadelo.
Mas a dor é real. Liam continua desaparecido. E eu continuo sem saber para onde Ryan o levou.
Pego o celular e olho as horas: 2h47. Nenhuma notificação, zero notícias dele.
Deixo o aparelho de lado, pego o boneco do Homem-Aranha e o aperto contra o peito.
— Vou te encontrar, Liam — murmuro, fechando os olhos, chorando novamente. — Dessa vez, eu vou cumprir.

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