Eduardo
Ainda não havia conseguido retomar o fôlego desde que deixara a reunião de forma abrupta. As paredes frias da sala o cercavam quando a porta se abriu com um estrondo seco.
- O que foi aquilo? - a voz grave ecoou, fazendo Eduardo se enrijecer na cadeira.
O avô entrou, imponente, cada passo marcado pela segurança de quem construíra um império com as próprias mãos. Os cabelos brancos não diminuíam sua presença intimidadora; pelo contrário.
- Abandonar uma reunião daquela forma? - encarou o neto com desdém. - E mais… ouvi dizer que sua mulher se demitiu. - Uma sobrancelha arqueou. - É isso? Resolveram ter filhos?
Eduardo soltou uma risada curta, amarga.
- Não, vô. Ela pediu o divórcio.
O velho o fitou com incredulidade.
- Por que você decidiu se divorciar?
- Não fui eu. - Eduardo respirou fundo, buscando firmeza. - Foi ela.
- Ela deu um motivo? - o velho passou a mão pelo queixo, pensativo.
- Não disse nada. Só saiu de casa e deixou o acordo.
- Não faz sentido. Vai te processar?
- Eu tinha pedido pra cancelar a indenização dos cinquenta milhões, mas vou falar com o advogado. - Admitiu, sabendo que fora mesquinho.
O velho pegou o telefone.
- Em cinco minutos na sala do vice-presidente.
Eduardo não sabia para quem a ordem fora cuspida, nem teve chance de perguntar. O patriarca assumiu o assento dele na mesa e trovejou:
- Marcos!
O assistente, parado perto da porta, quase tropeçou ao se aproximar.
- S… sim, senhor.
- Traga o plano de negócios em que vocês estão trabalhando. Agora.
Marcos gaguejou um “já, já vou” e saiu praticamente correndo, quase derrubando a pasta que carregava. Eduardo sentiu pena do rapaz - mesmo sendo neto, entendia o quão sufocante era estar diante daquele homem.
Minutos depois, Marcos retornou, ofegante, com duas pastas nas mãos. Entregou-as ao patriarca com uma reverência desajeitada.
O velho abriu os documentos e, com a calma de um predador, analisou cada dado. Rabiscou anotações rápidas, sem levantar a cabeça:
- Encontre outros fornecedores para as fibras naturais. Você concentrou demais num só.
- Sim, senhor. - Eduardo respondeu automaticamente, desviando o olhar para Marcos, que já registrava tudo no tablet.
Uma batida na porta. O avô fechou as pastas, tirou os óculos com um gesto firme e disse:
- Entre.
O advogado entrou, mas antes que pudesse falar, foi cortado:
- Por que não me avisou que o contrato pré-nupcial do meu neto foi alterado?
O homem pigarreou, ajeitando os óculos.
- Não foi alterado, senhor. Aqui está… exatamente como o senhor redigiu.
- Houve alguma solicitação de alteração? - os olhos do velho eram navalhas.
- Não, senhor. Já marcamos para amanhã, às dez.
Eduardo tomou a pasta das mãos do advogado, reconheceu o envelope, mas estranhou as páginas. Folheou rápido, o coração acelerando ao notar cláusulas que não lembrava de ter aprovado.
- Esse não é o acordo que eu pedi. - murmurou, a voz tensa.
- É o que eu redigi. - o avô respondeu com calma cortante. E, como quem encerrava o assunto, levantou-se e saiu, deixando Eduardo atônito.
O advogado pediu licença para ir, mas Eduardo ergueu a mão.
- Espere. O que significa isso?
- Senhor, achei que já soubesse. - o advogado hesitou. - Seu avô assinou este acordo com sua esposa na noite anterior ao casamento.


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