Vivian
Não sabia dizer em que momento havia perdido o controle. Um segundo antes, estava firme, pronta para colocar um ponto final na aproximação dele. No seguinte, os lábios de Eduardo estavam sobre os seus - quentes, impetuosos - e tudo ao redor deixou de existir.
O coração disparou. O corpo reagiu antes da mente, traindo cada promessa que fizera a si mesma. A pressão firme das mãos dele em sua cintura, a proximidade sufocante, a lembrança de anos em que bastava um toque para acreditar que era amada… tudo a empurrava contra ele.
Ela quis dizer não. Quis empurrá-lo. Mas o beijo tinha a força de um redemoinho, arrastando-a de volta a um passado que ainda latejava dentro dela. Era perigoso, era errado - e, mesmo assim, tentador.
Por um instante, cedeu. Apenas um. Deixou que os lábios se movessem contra os dele, que a respiração se embaralhasse, que o coração delirasse como se tivesse encontrado abrigo. O gosto de Eduardo era familiar, viciante, dolorosamente conhecido.
Então veio a mudança. O beijo se tornou mais voraz, mais faminto, quase possessivo. Não havia ternura, apenas urgência. Ele a devorava como se tentasse provar algo - não para ela, mas para si mesmo.
E foi nesse exato instante que a memória veio, fria como aço atravessando o peito:
“Confiável. Mas insípida. Sem sal.”
A voz dele. As palavras dele. Cruéis, implacáveis, ditas dias antes, ainda ecoando em cada canto da mente dela.
Vivian estremeceu. O beijo que a fazia arder agora a queimava de outra forma. Se ele a via assim, tão apagada, tão sem graça… com quem, então, acreditava estar agora? Quem era a mulher que Eduardo beijava com tanta fome, se não era ela?
O coração apertou, os olhos arderam. Cada segundo prolongado daquele contato passou a ser uma afronta. A urgência dele deixou de soar como paixão e se transformou em hipocrisia.
Vivian não suportou. O corpo inteiro se encheu de raiva, misturada com vergonha, humilhação, um gosto amargo que lhe subiu à boca. Num gesto instintivo, rompeu o beijo com violência - mordeu o lábio dele, o bastante para sentir o sal do sangue. Eduardo recuou, surpreso, confuso.
Antes que ele dissesse qualquer coisa, a mão dela estalou contra o rosto dele. Um tapa rápido, seco, carregado de tudo o que nunca tivera coragem de dizer.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Eduardo a olhava como se não a reconhecesse. Vivian, porém, não tremia. Não implorava. Não se desculpava. O olhar dela era gélido, duro, e nele não havia mais nenhum dos sentimentos que um dia dedicara a ele. Só desprezo.
As lágrimas ardiam, mas ela não queria continuar chorando. Caminhou até a janela, abriu-a para deixar o vento entrar. O ar frio tocou seu rosto, trazendo um mínimo de lucidez. A dor latejava como um tambor no peito, mas, por baixo dela, algo novo se formava - não era ódio, nem apenas tristeza. Era clareza. Cruel, mas necessária.
Vivian entendeu, naquele instante, que não poderia mais ser espectadora da própria vida. Nenhum beijo, por mais ardente, poderia apagar anos de feridas. E, se Eduardo algum dia a desejou, esse desejo sempre esteve contaminado pela dúvida, pela desconfiança, pela falta de respeito.
Passou a mão pelos próprios braços, num gesto de autoproteção, e deixou que uma lágrima escorresse. Depois outra. Mas não se permitiu soluçar. Não dessa vez. Não por ele.
Pegou o jogo de lençóis trazido por ele e jogou direto no cesto da lavanderia. Aquele gesto era como descartar a falsidade dele. Deitou-se, porque precisava descansar. O coração ainda estava em pedaços, mas seus olhos ardiam com uma nova determinação.
As palavras de Eduardo ainda ecoavam, mas agora soavam menos como sentença e mais como aviso.
Ela não era insípida. Não era sem sal. Era uma mulher inteira.
E ele - ele é que nunca foi capaz de enxergá-la.

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