Eduardo
Não conseguiu dormir.
O rosto de Vivian, duro, o olhar de desprezo, a lembrança do tapa ardendo em sua pele e o gosto metálico do próprio sangue eram como brasas queimando em sua mente. Não era apenas o fato de ter sido rejeitado - isso, por si só, já teria sido inédito. O que o devastou era quem o havia rejeitado. Vivian. A garota que acreditava estar sempre ali, mesmo quando ele nada oferecia em troca.
Virava-se de um lado para o outro na cama, o travesseiro amassado sob a cabeça, mas o sono teimava em não chegar. A cada piscada, os olhos dela voltavam à sua frente, frios como gelo, tão diferentes da menina que um dia lhe sorrira sem pedir nada em troca.
Quando finalmente o cansaço o venceu, quase ao amanhecer, os sonhos vieram pesados.
Ele se viu pequeno outra vez, um garoto franzino de terno engomado, parado diante da porta imponente da antiga mansão Braga. O mármore parecia frio, hostil. O vento assobiava, levantando poeira.
A mãe, de costas, afastava-se apressada, a mala arrastando pelo chão de pedras. Eduardo gritava, implorava que ela parasse, que olhasse para trás. Mas ela não virou o rosto. Sumiu. Sempre sumia.
O pai estava lá para recebê-lo. Nenhum abraço. Nenhuma palavra de consolo. Apenas regras, broncas, lições sobre honra e poder. O avô também estava lá, ainda mais severo, repetindo a mesma cantilena: “Você nasceu para ser Braga. Sentimentos não importam. Fraqueza não será tolerada.”
Mas não era isso que doía mais.
A madrasta aproximou-se, com o perfume enjoativo de rosas e veneno. O sorriso dela era gelado, cruel. Tocou-lhe o ombro com força, as unhas cravando na pele sensível do menino, e disse aquilo que os outros jamais ousaram pronunciar:
- Ninguém te ama. Ninguém te quer. Você só está aqui porque é o herdeiro.
As palavras ecoaram como marteladas, mas não pararam por aí. No sonho, a madrasta o empurrava para o chão. O mármore gelado rasgava seus joelhos. Quando ele tentou se levantar, sentiu a palma da mão dela bater em seu rosto - forte, humilhante. Depois, o cinto do pai estalando no ar, descendo sobre suas costas pequenas. Cada golpe ardia, queimava.
- Seja forte! - gritava o pai.
- Pare de chorar, você não é ninguém. - a madrasta cuspia.
Ele se encolhia, os olhos marejados, mas ninguém vinha em seu socorro. Até que uma risada cristalina cortou o ar.
A pequena Vivi, banguela, correndo em sua direção, os cabelos desgrenhados pelo vento. Ela o abraçou como se fosse a coisa mais natural do mundo. A dor nos joelhos desapareceu. O calor daquele gesto infantil foi o único raio de luz em meio à escuridão.
- Dudu, vamos, eu quero ficar com você, pra sempre . - disse a garotinha, com a inocência que só ela possuía.
Eduardo acreditou. Se agarrou a isso.
Mas o sonho mudou.
De repente, não eram mais crianças. Estavam adultos. Ela vinha em sua direção usando um vestido de noiva, arrastando pelo chão, um sorriso doce estampado no rosto. O coração dele disparou. Estendeu a mão, certo de que, finalmente, não estaria sozinho.

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