Eduardo
O escritório de Gilbert Braga parecia um relicário do poder. Estantes escuras repletas de volumes encadernados em couro, móveis maciços e um discreto cheiro de charuto impregnado nas cortinas pesadas. Eduardo estava sentado diante da imponente mesa do avô, mas se sentia novamente como um menino de dez anos, chamado para ser repreendido.
Gilbert recostou-se na poltrona de couro, os dedos entrelaçados sobre a bengala que repousava em seu colo. Seus olhos, ainda cortantes apesar da idade, pousaram no neto com uma calma que soava quase ameaçadora.
- Quero que me diga - começou, voz grave, arrastada -, o que está acontecendo entre você e Vivian?
Eduardo desviou o olhar. Não queria abrir a vida íntima do casal para o patriarca. Não queria admitir que estava perdendo o controle sobre a esposa. Inspirou fundo, escolheu as palavras.
- Não é nada que o senhor precise se preocupar. - respondeu com firmeza, mas sem agressividade. - Eu vou resolver.
- Tudo bem. - Gilbert arqueou as sobrancelhas. - Se não quer me contar, não insisto. Coisas de casal não vou me meter.
Um silêncio pesado se instalou, até que o velho murmurou, como quem confessa um pecado:
- Talvez eu tenha cometido alguns erros com ela. - ajeitou-se na poltrona, a voz carregada de uma sinceridade rara. - Desde o casamento… eu a tratei com frieza. Aquele acordo pré-nupcial foi demais. Achei que era a forma certa de proteger o patrimônio, mas acabei por humilhá-la.
Eduardo ergueu os olhos, surpreso. Nunca ouvira o avô admitir um erro, muito menos pedir desculpas, ainda que de forma velada. Não respondeu. Seu silêncio foi interpretado como concordância, e Gilbert encerrou o assunto batendo levemente a bengala no chão.
- Muito bem. - disse apenas. - Preciso encontrar uma forma de compensá-la. Vamos sair.
Quando deixaram o escritório, a mansão estava mais silenciosa. Muitos convidados já haviam partido. Eduardo avistou Vivian no jardim, a luz amarelada dos postes coloniais formando sombras suaves sobre sua figura. Ela estava sozinha, celular em mãos.
Gilbert foi o primeiro a se aproximar.
- Vivian. - chamou, a voz grave soando quase solene. - Posso ter uma palavra?
Ela se voltou devagar, surpresa, mas manteve a postura ereta. Não parecia intimidada.
- Claro, Presidente. - respondeu com formalidade.
Eduardo notou o detalhe. Antes, Vivian chamava o avô de “vovô”. Gilbert aceitava sem objeções, mas após o casamento passara a corrigi-la. Agora, a formalidade parecia uma barreira entre eles.
- Quero entender por que desistiu de trabalhar no Grupo Braga.
Vivian inspirou fundo.
- Porque durante os anos que estive lá, meu currículo foi desvalorizado. Meus projetos eram ignorados ou assinados por outros. Eu me tornei um enfeite conveniente… até que percebi que não precisava me sujeitar a isso. - ergueu o queixo. - Não tenho mais a pretensão de me deixar diminuir por esta família.
Os olhos de Gilbert brilharam.
- Brete Duarte? Esse escultor… - murmurou, realmente interessado.
Vivian confirmou com um aceno.
- Há muito tento entender por que ele se afastou. Você me manda um convite?
Ela concordou surpresa e sorriu de maneira polida, sinalizando o fim da conversa. Eduardo, ainda com o celular dela no bolso, fez um gesto curto.
- Vamos.
O trajeto de volta foi envolto em silêncio. Eduardo dirigia com o maxilar travado, os dedos tamborilando no volante num ritmo nervoso. Ao seu lado, Vivian olhava pela janela, distante, como se cada quilômetro os afastasse ainda mais.
Eduardo lançou-lhe um olhar de soslaio. Algo nela havia mudado. Não era apenas a firmeza das respostas ou a coragem de enfrentar a família inteira. Era como se Vivian tivesse erguido uma muralha invisível, um limite que ele não sabia mais como atravessar.
Essa constatação o deixou inquieto. Ele não sabia o porque mas sentia um peso esmagando o peito.

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