Vivian
O salão da galeria estava transformado num templo em honra às esculturas. As paredes brancas destacavam cada obra sob luzes estrategicamente posicionadas, de modo que cada peça parecia respirar. Metais refletiam a iluminação em tons quentes, pedras escuras projetavam sombras enigmáticas, madeiras entalhadas exibiam marcas de tempo e talento. O ar tinha um peso reverente, como se cada convidado soubesse que estava diante de algo raro, talvez irrepetível.
Vivian percorreu o espaço com passos firmes, mas discretos. O vestido azul-marinho, sóbrio e elegante, conferia-lhe o equilíbrio perfeito entre sofisticação e neutralidade profissional. Naquela noite, ela não era esposa de ninguém - não era a neta do mordomo, não era a Sra. Braga. Era a responsável por aquela exposição. E não permitiria que nada ofuscasse seu trabalho.
- Está impecável. - disse Matheus ao surgir ao seu lado.
Ele usava apenas calça preta e camisa de linho clara, as mangas arregaçadas, os cabelos desalinhados de propósito. Em meio a tantos ternos caros e vestidos engomados, Matheus parecia deslocado - e, paradoxalmente, era isso que o tornava magnético, sua postura era relaxada, como sempre. Os olhos castanhos traziam uma cumplicidade que a fazia sentir-se menos sozinha naquele mar de gente.
- Ainda bem que você acha. - Vivian sorriu de leve, mas sua atenção ainda saltava de detalhe em detalhe: iluminação, garçons, disposição de convidados. - A cada minuto, sinto que algo pode dar errado.
- Relaxe. - ele murmurou, com aquela calma irritantemente natural. - Essas esculturas já falam por si. Você só precisou dar a elas um palco.
Vivian quis agradecer, mas não teve tempo. Uma presença mais pesada se aproximou, e ela soube antes mesmo de vê-lo.
Eduardo.
Ele entrou no salão com a imponência herdada do próprio sobrenome. O terno sob medida moldava seu corpo atlético, o olhar sério impunha respeito antes mesmo que dissesse uma palavra. Mas naquela noite, havia algo além da aura habitual: uma dureza, uma tensão quase palpável.
Ao avistar Vivian conversando com Matheus, seus olhos se estreitaram. Cumprimentou o artista com um aceno frio, quase hostil, e voltou-se à esposa, a voz carregada de gelo:
- Você vai ficar trabalhando o evento todo? Vem sentar co…
- Sim, Eduardo. - ela interrompeu, firme. - Preciso acompanhar os convidados.
Ele pareceu querer dizer mais, mas conteve-se. Virou-se bruscamente e se afastou, deixando atrás de si um rastro de tensão.
Vivian respirou fundo, tentando recompor-se. Não percebeu que, mesmo enquanto falava com outros convidados, Eduardo continuava a segui-la com os olhos. Ele podia estar de pé ao lado de investidores, trocando palavras com conhecidos, mas seus olhares recaíam sobre ela como um peso constante. Vivian sentia - como quem sente o calor de uma chama próxima demais - mas fingia não notar. Não podia se dar ao luxo de perder o foco.
Foi então que o ar se encheu de um riso agudo, cristalino, impossível de ignorar.
Elisa.
Vestida num vermelho vibrante que desafiava todas as tonalidades sóbrias ao redor, ela surgiu como uma tempestade calculada. O vestido colado ao corpo ressaltava cada curva, e o batom rubro combinava com o brilho provocador dos olhos.
- Eduardo! - exclamou, avançando até ele e o envolvendo num abraço exageradamente íntimo. - Eu sabia que iria te encontrar por aqui.
Ele não a afastou. Ao contrário, correspondeu com um sorriso discreto. Havia nele algo de satisfeito, quase vaidoso, como se apreciasse a atenção repentina.
Vivian observou de longe, sem se permitir reagir. Ela tinha um evento para conduzir. Artistas, compradores e críticos aguardavam por ela. Não deixaria que Elisa roubasse sua noite.
Mas Elisa não estava ali apenas para roubar a cena. Tocava o braço de Eduardo com familiaridade, inclinava-se para falar-lhe ao ouvido, ria alto em momentos inoportunos. E, vez ou outra, lançava olhares rápidos e calculados em direção a Vivian - uma mensagem silenciosa: ele ainda me pertence.
Enquanto isso, Eduardo seguia cada passo da esposa com os olhos. Mesmo quando Elisa monopolizava sua atenção, ele não conseguia deixar de encarar Vivian ao atravessar o salão. Era como se quisesse certificar-se de onde ela estava, com quem falava, como sorria.
Vivian, consciente desse olhar, manteve-se fiel ao papel de anfitriã. Conversava com colecionadores, explicava detalhes técnicos, sorria para jornalistas. Mas em momento algum cedeu à tentação de encará-lo de volta. Se seus olhares se cruzassem, seria como admitir que ele havia conseguido atingi-la.

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