Eduardo
A manhã entrou pesada, como se o sol tivesse se transformado em inimigo. Eduardo acordou com a cabeça latejando, os olhos ardendo, a boca seca. Não era a primeira ressaca de sua vida, mas aquela parecia diferente - como se não fosse apenas o álcool que o castigava, mas também a lembrança do que não conseguia organizar em sua mente.
Esfregou os olhos e só então percebeu onde estava: o quarto de hóspedes. O lençol tinha um perfume delicado, floral, inconfundível. Vivian. Mesmo que ela não estivesse ali, o cheiro dela impregnava nos travesseiros e, principalmente, em sua pele. Eduardo passou a mão no peito, recordando-se de um instante fugaz na madrugada: acordara por alguns segundos e a sentira nos braços. O mundo parecia ter finalmente voltado ao lugar certo, e ele adormecera outra vez, ignorando a dor insistente na testa.
Agora, no entanto, a realidade era cruel.
Levantou-se devagar, levando a mão à cabeça. Um pequeno curativo cobria o corte na testa. No reflexo do espelho no banheiro, ele notou a figura amarela sorridente estampada no adesivo. Bob Esponja. Um detalhe ridículo, infantil, mas que, de alguma forma, era um distintivo. O sinal claro de que Vivian, apesar de tudo, ainda se importava com ele.
- Merda… - murmurou para si mesmo, tocando o band-aid com cuidado.
O banho trouxe algum alívio, mas não apagou a confusão na mente. Evitou molhar o curativo, como se tivesse medo de apagar aquele rastro de cuidado. Vestiu-se com a mesma precisão de sempre: terno impecável, gravata alinhada. Ainda assim, quando se olhou no espelho, sentiu-se mais vulnerável do que em qualquer negociação que já travara.
Ao descer para o café, encontrou Dona Lúcia na copa, arrumando a mesa.
- Bom dia, senhor Eduardo. - ela cumprimentou, erguendo os olhos curiosos para o curativo colorido.
- Bom dia… - ele respondeu, seco, como de costume. Olhou em volta, mas não viu Vivian. - Minha esposa… ela está em casa?
Dona Lúcia pareceu hesitar por um instante, como se medisse as palavras.
- A senhora Vivian saiu cedo, antes mesmo do café. Avisou que não volta para o jantar.
Eduardo sentiu o estômago revirar. O tom era polido, mas a mensagem cortava como lâmina.
- E ela disse… porque? - a pergunta escapou, carregada de uma raiva que ele tentou disfarçar.
- Apenas comentou que teria compromissos no trabalho. - Dona Lúcia respondeu, voltando o olhar para a toalha como se fosse mais segura que encarar o patrão.
Eduardo cerrou o maxilar. Um nó de ciúme e fúria subiu pela garganta. A imagem de Vivian rindo ao lado do artista se impôs diante dos olhos dele.
- Entendi. - sua voz era baixa, contida, mas cada sílaba trazia o peso de um trovão prestes a explodir.
Virou-se sem comer nada, apenas apanhou a pasta e atravessou o saguão da mansão. No fundo, tudo o que queria era colocar as mãos em Matheus e arrancar a tinta do couro dele.
No escritório, o burburinho habitual corria pelos corredores, mas havia algo diferente no ar. Funcionários disfarçavam olhares curiosos, cochichos abafados, mas ninguém ousava perguntar sobre o curativo colorido na testa do vice-presidente. Eduardo manteve o semblante sério, ignorando cada olhar, embora soubesse que todos notavam.
Foi só quando Gustavo o encontrou no escritório que a zombaria foi descarada.
- Meu Deus do céu… - ele disse, jogando-se na poltrona diante da mesa de Eduardo. - O Braga, o temido magnata, o homem que arrasa corações e destrói concorrentes… com um Bob Esponja na testa. Eu vivi pra ver isso.
Eduardo levantou os olhos dos papéis que fingia ler, sem esboçar reação.
- Vai se danar, Gustavo.
- Não dá, cara. - Gustavo riu alto, balançando a cabeça. - Você não tem noção do quanto isso é maravilhoso. Aposto que ninguém acreditaria mesmo se eu mostrasse uma foto.
- Não ouse. - A voz de Eduardo saiu baixa, carregada de ameaça.
- Relaxa, não vou expor o homem que paga minhas bebidas. - Gustavo ergueu as mãos em rendição, mas ainda sorria. - Mas agora eu preciso saber. O que foi isso? - Ele apontou para o curativo.

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