Eduardo
Não lembrava de já ter se sentido tão exausto em um único dia.
As reuniões haviam se arrastado desde cedo, cada detalhe da abertura de capital exigindo sua atenção minuciosa. Ele poderia ter delegado boa parte daquilo, como já fizera tantas vezes, mas escolheu se manter ocupado de propósito. Mergulhou nos contratos, nas projeções, nos relatórios, como se a avalanche de números pudesse abafar os pensamentos que insistiam em rondá-lo.
Não era a empresa que o preocupava - aquilo ele dominava com precisão cirúrgica. O que o corroía, minuto após minuto, era a proximidade inevitável do banquete: o momento em que teria de encarar Vivian em meio a todos, depois da cena da noite anterior.
Ali estava o verdadeiro problema: cada vez que se aproximava dela, Eduardo sentia o controle lhe escapar entre os dedos. Ele, que mantinha disciplina quase militar, tornava-se um estranho para si mesmo na presença daquela mulher. A raiva vinha fácil demais, o desejo o corroía sem aviso, e a distância que ela fazia questão de impor só aumentava a sensação de perder uma batalha que nunca quis lutar.
E pior: teria de encarar os convidados, cada par de olhos avaliando, julgando, esperando a menor rachadura em sua postura para transformar tudo em escândalo.
Quando os primeiros carros começaram a estacionar no pátio iluminado da casa de campo, Eduardo fechou a pasta de documentos com um estalo seco. Caminhou até o espelho e ajeitou a gravata. O reflexo que o encarava parecia de pedra: mandíbula travada, ombros rígidos, olhar sombrio. Perfeito para enfrentar a família. Perfeito para esconder a tormenta que carregava dentro.
Entre os primeiros convidados, reconheceu Lucas.
O sorriso fácil, a postura descontraída, a presença de mais uma modelo ao lado - alta, deslumbrante e claramente usada como acessório social. Eduardo conhecia o tipo. Lucas nunca se prendia a ninguém, nunca permitia que qualquer relacionamento durasse mais do que alguns meses. Com exceção de um detalhe: a forma como orbitava Vivian.
Desde a faculdade, Lucas não escondia o fascínio por ela. Declarava-se com insistência juvenil, sempre disfarçando com o tom de brincadeira, recebendo como resposta uma barreira intransponível: o lugar de “amiga”, de “irmã”. Vivian nunca dera a ele nada além disso. Eduardo sabia. Mas também sabia que os sentimentos de Lucas iam muito mais fundo do que ele deixava transparecer.
E o simples fato de vê-lo agora atravessando o salão com aquele sorriso confiante fez algo amargo se instalar no peito de Eduardo.
O salão principal estava impecável. Lustres de cristal espalhavam a luz dourada, refletindo nas taças já alinhadas sobre as mesas. Arranjos de flores elegantes exalavam perfume sutil, e uma orquestra discreta se preparava para iniciar as primeiras notas.
Vivian desceu as escadas com Clara, e Eduardo sentiu o ar rarefeito.
O vestido azul-marinho realçava cada linha do corpo dela, discreto e sofisticado, mas ainda assim capaz de atrair olhares de todos os lados. Não que ela parecesse perceber. Caminhava com a cabeça erguida, o sorriso discreto no rosto, cumprimentando os convidados com a polidez necessária, mas sem entusiasmo. Eduardo quase invejou a forma como ela conseguia disfarçar o quanto detestava aquele tipo de evento.
Ele, por outro lado, estava em guerra consigo mesmo. Parte dele queria permanecer distante, observar sem intervir, respeitar o espaço que ela reivindicara tantas vezes. Mas a outra parte - a mais forte, a mais visceral - simplesmente não suportava vê-la ser alvo de atenções, especialmente de homens como Lucas.
Assim, quando o banquete foi anunciado e todos começaram a se acomodar, Eduardo se aproximou de Vivian.
Ela estava ao lado dos pais e do avô, a expressão cansada suavizada pelo aconchego da própria família.
- Eduardo. - o pai de Vivian o cumprimentou primeiro, abrindo um sorriso sincero e estendendo a mão. - É bom vê-lo.
Eduardo apertou a mão dele com firmeza, sentindo a familiaridade desconcertante daquele gesto. O sogro não o olhava como sócio, como concorrente, como herdeiro de uma fortuna. Apenas como parte da família.
- Senhor Souza. Dona Helena. - inclinou a cabeça para a mãe de Vivian, que respondeu com um toque leve em seu braço. O gesto simples o pegou desprevenido, quase arrancando-lhe o ar. Não lembrava da última vez que alguém da própria família o tocara com carinho.
- Perdoem-me por não ter vindo recebê-los hoje… o dia foi corrido demais - disse ele, genuinamente arrependido.
- Não se preocupe com isso. Vocês precisam nos visitar para uma refeição qualquer dia desses, estamos com saudades - respondeu Dona Helena, ainda acariciando-o como se fosse um filho.

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