Vivian
O primeiro som que ela ouviu foi o bip compassado das máquinas.
Depois, o cheiro de álcool e desinfetante.
E, por fim, o peso de algo quente segurando sua mão.
Vivian piscou devagar. A luz branca do quarto de hospital a cegou por um instante. Tentou se mover, mas uma dor aguda atravessou o braço - um gemido escapou de seus lábios.
- Ei... calma. - A voz era grave, rouca, conhecida demais. - Você está no hospital. Está tudo bem agora.
O mundo girou, mas, quando o foco voltou, ela o viu.
Eduardo.
Sentado na poltrona ao lado da cama, o rosto pálido, a barba por fazer, as olheiras profundas. O cabelo desalinhado denunciava noites sem dormir.
Mas o que mais a atingiu foi o olhar dele - uma mistura de alívio e culpa que ela nunca tinha visto antes.
Vivian tentou afastar a mão, mas ele a segurou com firmeza.
- Não faz isso - murmurou. - Eu achei que tinha te perdido.
Ela piscou algumas vezes, confusa, a voz falhando:
- O... o que aconteceu?
- O carro. - Ele hesitou. - Vocês sofreram um acidente na estrada.
O coração dela disparou.
- Meus pais! - tentou se erguer, mas a dor no braço a impediu. - E o meu avô? Eles estão bem?
Eduardo se inclinou rápido, tentando acalmá-la.
- Estão, Vivian. - A voz dele era baixa, quase um sussurro. - Seu pai teve algumas costelas trincadas, mas já está se recuperando. Sua mãe só teve escoriações leves. E o seu avô... ele também vai ficar bem. Já está consciente, inclusive perguntou de você.
As lágrimas vieram de imediato, silenciosas.
Vivian respirou fundo, deixando o alívio tomar conta.
Por um momento, esqueceu de tudo o resto - só conseguia agradecer mentalmente por estarem vivos.
Mas então, quando voltou a encará-lo, a lembrança de tudo o que ele a fizera passar reapareceu, como uma ferida que se abre de novo.
A presença dele ali, tão próxima, doía de um jeito diferente.
- Por quanto tempo eu... - a voz saiu rouca. - Estou aqui?
- Dois dias - respondeu ele, quase num sussurro. - Você ficou inconsciente depois da cirurgia.
Ele hesitou, os olhos marejados. - Teve muita perda de sangue.
O silêncio que se seguiu foi denso, quase palpável.
Ela voltou a encarar o teto, os olhos fixos no nada.
O som do monitor cardíaco preenchia o espaço entre eles, medindo cada segundo daquela distância que nem a tragédia parecia capaz de encurtar.
- Obrigada pela sua preocupação e ajuda - murmurou, fria. - Mas já pode ir embora cuidar das suas coisas.
- Vivi, eu não vou te deixar...
Ela arrancou a mão do aperto dele, mesmo que a dor lancinante no braço direito quase a fizesse gritar. Aquele apelido - o mesmo que ela implorou em silêncio para voltar a ouvir durante anos - agora soava como um deboche cruel.
- Quero descansar. Saia. - O tom dela não dava espaço para discussão.
Nos dias em que ela esteve desacordada, o hospital inteiro testemunhou o desespero dele.
Eduardo não deixou o lado dela nem por um instante. Dormiu em uma cadeira dura, recusou comida, recusou conselhos.
Quando o pai de Vivian conseguiu vê-la, a fúria foi imediata.
- Saia daqui, Eduardo! - a voz de Augusto ecoou pelo corredor, atraindo olhares. - Já fez minha filha sofrer o suficiente!
- Eu não vou embora. - A resposta foi baixa, firme.
- Não vai? - o homem se aproximou, com os olhos marejados e a voz trêmula. - Você acha que lágrimas agora vão apagar o que fez? As humilhações, o abandono?
Ele não esperou resposta. Os ferimentos não o impediram. O soco veio antes - um golpe seco, que o fez cambalear para trás.
- Eu sei que errei... - ele começou, mas ela o interrompeu com um olhar gélido.
- Não, Eduardo. Você destruiu o que havia entre nós. E agora quer remendar com palavras? Que clichê de merda.
Ela respirou fundo, sentindo a dor no peito aumentar.
- Você teve anos pra provar que se importava. E o que fez? Me usou pra fazer birra, como a criança mimada que sempre foi.
Ele ficou em silêncio, imóvel.
As palavras dela eram facas, mas ele sabia que merecia cada uma.
- Eu sei que te perdi - disse, por fim. - Mas eu não vou embora até saber que você está fora de perigo.
Ela o encarou por um instante.
Nos olhos dele, havia sinceridade - dolorosa, crua, quase desesperada.
Mas, para ela, já era tarde demais.
- Fique, se quiser - murmurou. - Afinal, o que eu quero não importa mesmo.
Eduardo baixou o olhar, o maxilar tenso, as mãos fechadas sobre os joelhos.
Ela virou o rosto para a janela, deixando que o silêncio ocupasse o espaço entre eles.
Lá fora, o sol começava a nascer, tingindo o quarto com uma luz alaranjada.
Um novo dia - irônico, já que tudo dentro dela parecia morto.
Eduardo permaneceu ali, quieto, observando a respiração dela se estabilizar.
Não ousou tocá-la novamente.
Não ousou dizer mais nada.
E, quando Vivian finalmente adormeceu outra vez, ele fechou os olhos também, exausto - mas sem sair do lugar.
Porque, mesmo sem perdão, ainda era o único lugar onde sabia que devia estar.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Esposa Desprezada: O CEO Vai Implorar Por Amor
A história é boa, pena que hoje em dias, autores usem a IA para criar os enredos. Frases e modelo de escrita que estão saturadas. A gente lê e já sabe que houve uso da IA. Está difícil achar alguém que não use. Esses dias li uma história da Amazon, chamada "Um ponto de partida" da Jay Roslyn e do começo ao fim, fui lendo e dizendo pra mim mesma "se tiver indícios de IA, nem leio mais. Mas não tinha até pq quando a autora escreveu, era 2018. Pensa em como fiquei feliz por algo tão natural e bem elaborado. Essa daqui também está natural, mas infelizmente, os vícios de linguagem da IA, estão presentes. No mais, eu até que gostei bastante....
Também não consegui lê os últimos capítulos inteiros, mais amei a história, e o final, não teve enrolação! Parabéns pra quem escreveu 👏🏼...
Eu amei o livro, a plataforma não cobra em real?!Fiquei sem o ultimo capitulo, mas gostei muito da história....