Eduardo
Nos primeiros dias depois do acidente, Eduardo quase não dormiu.
Quando finalmente cedia ao cansaço, o sono o traía.
Os pesadelos sempre o levavam de volta à estrada — a noite fria, o cheiro de gasolina, o sangue escorrendo pelo rosto de Vivian enquanto ele gritava o nome dela sem resposta.
Acordava sempre da mesma forma: suando, o peito em chamas, com a certeza de que não conseguiria sobreviver se ela morresse.
Mas Vivian estava se recuperando — e o rejeitava com a mesma determinação de quem decide apagar um incêndio.
Ele fez tudo o que pôde.
Trouxe uma equipe médica de ponta da capital: especialistas em ortopedia e reconstrução. Tudo sem que ela soubesse, temendo que recusasse o tratamento se descobrisse.
Como fora expulso do quarto por ela, alugou o quarto ao lado.
Quis falar algo, explicar, pedir perdão talvez — mas se manteve afastado. A prioridade era sua recuperação.
A mulher que dormia no leito ao lado era uma estranha.
Os traços eram os mesmos, mas os olhos — quando o fitavam — já não tinham a doçura de antes.
Recusava suas visitas, suas flores, suas tentativas de conversa.
Em compensação, Matheus, Lucas e seus outros amigos eram recebidos como heróis.
Entravam no quarto sorrindo, trazendo livros, chocolates, histórias do mundo lá fora.
Ela ria.
E cada risada de Vivian ecoava no peito de Eduardo como um castigo.
Para não se afastar em nenhum momento, transformou o pequeno quarto em um escritório improvisado — o notebook sobre a mesa, pilhas de relatórios ao lado.
Os enfermeiros já se acostumavam à sua presença: um homem imponente, de olhar cansado, que não saía do hospital e mal lembrava de comer.
Todos ao redor de Vivian o faziam perceber que não era bem-vindo.
Vicente passou alguns dias em observação; o olhar decepcionado que lhe lançou no corredor doeu mais do que qualquer repreensão.
Dona Helena, que o tratara como um filho, agora o ignorava.
E o pai dela, então…
Mesmo depois de tudo, ele não foi embora.
Havia algo quase insuportável em vê-la se afastar sem dar um passo.
Mas o que o derrubou de vez foi o que Alice contou:
Vivian assinara a procuração.
O divórcio estava a caminho.
Não foi o documento que o destruiu — foi o que entendeu naquele instante.
Ela não apenas queria ir embora.
Ela já tinha ido.
Naquela tarde, estava em uma videoconferência com os diretores do grupo.
A voz de um dos gerentes soava distante, abafada pelo zumbido do ar-condicionado. Eduardo tentava se concentrar, mas o olhar voltava sempre para a parede fina que o separava de Vivian.
Sabia em que horas ela tomava os remédios, quando dormia, quando recebia visitas.
Até que uma voz conhecida — aguda, irritantemente familiar — atravessou a parede como uma lâmina.
Elisa.
“O que diabos aquela mulher estava fazendo ali?”
Eduardo congelou.
— …eu só quero te ajudar. Conheço diversos cirurgiões plásticos, você não precisa ficar mutilada. — dizia Elisa, com aquele tom teatral. — A aparência, para nós mulheres, é tudo…
O som da voz dela fez Eduardo fechar o notebook com força.
A reunião seguiu sem ele.
Levantou-se, atravessou a pequena distância que os separava e empurrou a porta do quarto ao lado sem bater.
Vivian estava pálida, apoiada nos travesseiros.
Ele ficou parado à porta por alguns segundos, sem coragem de se aproximar.
— Ela não vai voltar — murmurou, quase num sussurro. — Prometo.
Nenhuma resposta.
Apenas o som do monitor cardíaco e o vento batendo na janela.
Por um momento, Eduardo quis atravessar o quarto, segurar a mão dela, dizer que estava ali — não por culpa, nem por conveniência, mas porque a amava, mesmo sem saber mais como provar isso.
Mas não o fez.
Sabia que qualquer palavra seria um erro.
Então voltou para o seu quarto, encostou-se à parede e deixou a cabeça pender entre as mãos.
As noites seguintes foram piores. Os pesadelos voltaram com força, e mesmo acordado ele via flashes da cena na estrada — o som dos freios, o vidro estilhaçando, o sangue nos dedos quando tentou estancar o ferimento dela.
O médico garantira que Vivian estava fora de perigo.
Mas nada o convencia de que aquilo o tornava menos culpado.
Na noite que antecedeu a alta, enquanto o hospital dormia, ele ficou em pé diante da porta do quarto dela, observando-a pela fresta.
Vivian dormia, o rosto iluminado pela luz suave do corredor.
O braço enfaixado repousava sobre o lençol.
Ela parecia frágil.
Eduardo encostou a testa na parede fria.
Não pediu perdão.
Nem esperança.
Apenas sussurrou, como quem confessa para o escuro:
— Eu mereço te perder… mas não sei como te deixar ir.
E ficou ali até o amanhecer, em silêncio — guardando, sozinho, a culpa que o mantinha vivo.

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