Vivian
O sol da tarde invadia o quarto pelas persianas abertas, e Vivian sentia o calor da luz bater em seu rosto, como se o mundo estivesse zombando do frio que ela carregava por dentro.
Dois dias desde a alta.
Dois dias tentando se convencer de que estava tudo sob controle.
A enfermeira dissera que ela precisava de repouso, mas a ideia de continuar na casa dos pais - e ver a preocupação nos olhos de todos - a sufocava.
“Já dei trabalho demais”, murmurara, quando o avô insistiu.
Precisava seguir em frente, provar que era capaz de recomeçar sozinha.
Mesmo que, por dentro, se sentisse quebrada em mil pedaços.
O apartamento que financiara logo depois da faculdade parecia menor do que lembrava. O cheiro de tinta nova, deixado pelos inquilinos, misturava-se à sensação estranha de estar de volta a um lugar que já não lhe pertencia.
Mas era seu refúgio - e o único lugar onde Eduardo não deveria aparecer.
Ou assim ela pensava.
Na primeira noite, ainda tentando se adaptar à nova rotina e ainda tomando cuidado com o braço que doía com qualquer movimento errado, o som da campainha ecoou como um golpe seco.
Vivian não esperava visitas. O coração acelerou.
Quando abriu a porta, o choque foi imediato.
Eduardo.
De jeans, camisa branca arregaçada nos cotovelos e uma sacola de mercado.
- O que você está fazendo aqui? - a voz dela soou mais firme do que se sentia. - Como você achou esse lugar?
- Só vim ver se você estava bem - respondeu ele, como se aquilo fosse o mais natural do mundo.
Vivian ergueu o queixo, sem esconder a irritação. - Eu estou bem. Pode ir embora.
Mas ele já tinha passado por ela, com aquele jeito autoritário de quem ainda acreditava ter espaço.
- Trouxe comida. Só coisas leves, saudáveis - disse, erguendo a sacola com um sorriso que não chegava aos olhos. - E antes que reclame, eu mesmo vou cozinhar. Li que algumas verduras têm efeito anti-inflamatório… achei que podia ajudar.
Ela ficou parada, observando o ex-marido se mover pela cozinha como se fosse a casa dele.
Cada gesto dele a confundia: o tom cuidadoso, o olhar gentil… tudo parecia falso, ensaiado.
E, ainda assim, havia algo ali - algo que fazia o peito dela doer, como se o coração não tivesse entendido que estava acabado.
O cheiro de temperos queimando se espalhou pelo ar.
Eduardo tentava parecer calmo, mas a cozinha parecia um campo de batalha. Vivian observava à distância, os olhos semicerrados.
- Você nunca soube cozinhar, - ela murmurou, - nem ovo frito.
Ele sorriu de canto, sem graça. - Posso aprender.
- Pra quê? - rebateu, seca. - Acha que isso vai me impressionar?.
O silêncio caiu entre eles, cortante.
Quando, alguns minutos depois, ele colocou o prato à frente dela, Vivian percebeu o desastre antes mesmo da primeira garfada.
O arroz estava empapado, o frango salgado demais, e as verduras… bem, tinham pontos tão escuros que quase lembravam carvão.
Mesmo assim, ela comeu duas garfadas - talvez por fome, talvez por puro cansaço.
Depois, insistiu em lavar toda a louça, limpou o fogão, organizou os armários - demorou tanto que Vivian começou a se perguntar se ele estava caprichando… ou apenas adiando o momento de ir embora.
- Pode ir agora, Eduardo. - A voz dela saiu cansada, mas firme. - Eu só quero descansar.
Ele hesitou, passando a mão pelos cabelos, o olhar perdido.
- Vou ficar aqui. Só por hoje.
- Não.
- Só pra garantir que está tudo bem - disse, tentando soar casual. - Vou te ajudar com os curativos e os remédios. Fiz um curso intensivo com as enfermeiras no hospital, aprendi tudinho. Prometo que sou um enfermeiro melhor do que cozinheiro.
Vivian suspirou, sentindo a exaustão pesar no corpo. Não tinha forças pra discutir.
Deixou que ele ficasse - desde que dormisse no sofá.
O que ela não esperava era o que viria depois.
A madrugada caía silenciosa sobre o apartamento. Vivian não conseguia dormir - o braço latejava, a tala pesava, e o som do relógio parecia zombar de sua insônia.
Ouviu passos.
O coração disparou.
Eduardo.
Por instinto, ela fechou os olhos, fingindo dormir.
O colchão afundou levemente ao lado.
A respiração dele estava próxima, quase hesitante.
Vivian prendeu o ar.
Eduardo moveu-se devagar, pegou dois travesseiros e começou a ajeitá-los com cuidado sob o braço dela - o mesmo que ela mal conseguia mover.
- Assim vai doer menos - murmurou, a voz baixa, quase um sussurro.
Ela manteve os olhos fechados, os cílios trêmulos.
Era alguém no meio do caminho - perdido, tentando reparar o irreparável.
- Você não entende, não é? - disse enfim, a voz baixa. - O que eu mais quero é distância disso tudo. De você, de nós. Preciso respirar.
Eduardo se aproximou um passo, e o olhar dele a fez recuar instintivamente.
Não por medo - mas porque doía.
- Eu entendo, - murmurou ele. - Só não sei como fazer isso sem você.
Vivian desviou o olhar, apertando o tecido do moletom com a mão boa.
Não havia resposta. Não havia força suficiente para brigar de novo.
Nos dias seguintes, ele continuou ali.
Trabalhava do sofá, respondia e-mails, atendia chamadas, como se o apartamento fosse uma extensão do hospital.
De vez em quando, deixava flores na mesa, ou preparava algo simples - chá, sopa, torradas.
Pequenos gestos que confundiam mais do que confortavam.
Às vezes, ela o observava de longe, tentando entender o que via:
O homem que ela amou, ou o estranho que a magoou?
Eduardo parecia sempre cansado, o olhar marcado por noites em claro.
Mas havia algo sincero na maneira como olhava pra ela - um arrependimento que nem ele sabia disfarçar.
E isso era o que mais a deixava em pedaços.
Porque, mesmo querendo odiá-lo, uma parte dela ainda se lembrava do toque gentil, das risadas antigas, da sensação de segurança que ele trazia.
Mas era uma lembrança - e ela se recusava a viver de fantasmas.
Na terceira noite, quando acordou sobressaltada, o braço latejando de dor, encontrou Eduardo sentado no chão, encostado à parede, a cabeça caída sobre os joelhos.
Dormia mal. Parecia exausto.
Vivian o observou por um tempo.
Aquele homem que um dia ela achou indestrutível agora parecia tão frágil quanto ela.
Talvez o acidente tivesse quebrado os dois - de maneiras diferentes.
Suspirou e fechou os olhos novamente, virando o rosto pro outro lado.
Não podia se permitir sentir pena.
Não podia se permitir sentir nada.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Esposa Desprezada: O CEO Vai Implorar Por Amor
A história é boa, pena que hoje em dias, autores usem a IA para criar os enredos. Frases e modelo de escrita que estão saturadas. A gente lê e já sabe que houve uso da IA. Está difícil achar alguém que não use. Esses dias li uma história da Amazon, chamada "Um ponto de partida" da Jay Roslyn e do começo ao fim, fui lendo e dizendo pra mim mesma "se tiver indícios de IA, nem leio mais. Mas não tinha até pq quando a autora escreveu, era 2018. Pensa em como fiquei feliz por algo tão natural e bem elaborado. Essa daqui também está natural, mas infelizmente, os vícios de linguagem da IA, estão presentes. No mais, eu até que gostei bastante....
Também não consegui lê os últimos capítulos inteiros, mais amei a história, e o final, não teve enrolação! Parabéns pra quem escreveu 👏🏼...
Eu amei o livro, a plataforma não cobra em real?!Fiquei sem o ultimo capitulo, mas gostei muito da história....