Vivian
Os flashes ainda ecoavam na memória de Vivian.
A exposição havia sido um sucesso absoluto - críticas entusiasmadas, convidados encantados. Foi o primeiro grande evento desde que voltara a trabalhar. A galeria estava crescendo, e, pela primeira vez em muito tempo, Vivian sentia que o trabalho tinha propósito.
Naquela noite, durante o coquetel de encerramento, ela caminhava entre os convidados com uma taça de espumante nas mãos e um sorriso leve, natural. O salão estava vibrante - música suave ao fundo, gargalhadas, conversas animadas.
Tomas se certificava de que todos fossem bem recebidos; Matheus, com seu dom de narrar histórias, encantava os compradores ao falar sobre cada obra exposta.
Mas, por um breve instante, algo a desestabilizou.
Sentiu-se observada.
Virou-se - e o mundo pareceu parar por um segundo.
Do outro lado do salão, entre o vai e vem dos convidados, uma silhueta familiar.
Alto, terno escuro, olhar fixo nela.
Eduardo.
Piscou - e ele já não estava mais lá.
Um reflexo? Uma alucinação? Ou apenas a mente pregando peças?
Sacudiu a cabeça, afastando a sensação.
“Não pode ser ele. Deve estar aproveitando a vida de solteiro”, pensou, tentando rir de si mesma.
Não queria - e não podia - deixar que fantasmas do passado interferissem naquela nova fase. Eduardo era passado. Um passado que doía, mas que já não a dominava.
Mais tarde, quando o evento terminou e o salão foi se esvaziando, a pequena equipe da galeria e alguns amigos foram comemorar em um restaurante próximo.
O clima era leve, de riso fácil - taças tilintando, elogios ao trabalho da curadoria.
Clara gesticulava, empolgada, falando sobre as obras mesmo sem entender muito de arte. Matheus, sempre inspirado, explicava o simbolismo por trás de cada detalhe. Alice, curiosa, não entendia como uma tela minúscula podia ser mais cara que outra de um metro e meio.
Vivian ria, sentindo-se leve, feliz.
Até que o celular de Matheus vibrou.
Ele atendeu com o semblante sereno de sempre, mas à medida que ouvia, sua expressão mudou. Os olhos endureceram; a postura, tensa.
Quando desligou, o ar ao redor pareceu pesar.
- Aconteceu alguma coisa? - perguntou Vivian, pousando a taça sobre a mesa.
Matheus respirou fundo. - Um colecionador entrou com um processo contra a galeria.
O silêncio foi imediato.
- Processo? Como assim? - questionou Tomas.
- Ele alega que uma das telas que comprou conosco é falsa - explicou Matheus, voz baixa e controlada. - Diz que o certificado de autenticidade é inválido.
Vivian sentiu o sangue gelar.
- Qual tela?
- Horizonte Silencioso, de Victor Alencar.
Ela levou a mão à boca.
Aquela era a tela que ela havia negociado.
Lembrava-se bem da transação - do entusiasmo do colecionador, da confiança do intermediário, da segurança com que apresentara a peça.
- Mas, Matheus… aquela obra veio com toda a documentação. Eu vi os papéis, o histórico da coleção anterior, tudo estava em ordem.
- Eu sei - respondeu ele. - Mas o comprador contratou um perito independente, e o laudo dele aponta inconsistências.
Vivian ficou imóvel. As risadas, as luzes, as vozes - tudo pareceu se apagar.
- Isso pode destruir a reputação da galeria - murmurou Clara.
Matheus assentiu. - Já entrei em contato com os advogados, mas o dano de imagem... esse é mais difícil de reparar. Nesse meio, confiança é tudo.
Vivian abaixou o olhar, um nó se formando na garganta.
- Fui eu quem fez a negociação. Se a obra for mesmo falsa... - A voz falhou. - A culpa é minha.
- Ei, não é culpa sua - interrompeu Matheus, firme. - Você seguiu o protocolo, fez tudo certo. Se houve falsificação, foi antes de chegar às nossas mãos.
Mas as palavras não a confortaram.
Nos dias seguintes, o telefone não parava. O caso se espalhou rapidamente entre colecionadores e críticos.
Matérias em sites especializados começaram a questionar a autenticidade das obras representadas pela galeria.

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