Eduardo
Eduardo estava em seu escritório, entre reuniões, o olhar fixo nas manchetes que se espalhavam pelas redes sociais.
“Famosa tela Horizonte Silencioso, de Victor Alencar, envolvida em escândalo de falsificação.”
“Galeria do pintor Matheus Azevedo é acusada de vender obra falsa.”
Por um instante, ele quase sorriu.
O pintor carismático, o queridinho da crítica, finalmente tropeçando.
Era feio admitir - e ele sabia disso -, mas um sentimento mesquinho de satisfação o percorreu.
- Finalmente o pintor metido a galã tropeçou… - murmurou, recostando-se na cadeira.
Até que leu o segundo parágrafo:
“A negociação da peça foi conduzida por Vivian Souza, responsável administrativa da galeria.”
O coração dele parou.
Vivian.
O sorriso morreu nos lábios.
Tudo o que sentia - orgulho, raiva, ciúme - se dissolveu num segundo.
O mundo pareceu encolher.
A respiração ficou curta.
O copo de uísque em sua mão trincou entre os dedos.
- Vivian… - sussurrou, como se o nome tivesse o poder de rasgar o ar.
Cada linha da matéria o feria.
Falava em processo, perda de reputação, risco financeiro.
Falava dela - e o nome de Vivian estava ali, associado à palavra fraude.
Abriu o aplicativo de mensagens, encontrou o contato do escritório de advocacia e enviou o link da matéria com uma ordem curta:
“Solução imediata.”
- Você está pálido, cara. - A voz de Gustavo o tirou do transe.
O amigo estava parado na porta, com expressão mista de preocupação e cansaço.
Eduardo não respondeu. Continuou encarando o monitor como se pudesse atravessar a tela.
- Eu vi as notícias também - continuou Gustavo, aproximando-se. - E, por favor, me diz que não está pensando em se envolver nisso.
Eduardo pousou o copo na mesa, a voz firme, porém baixa:
- Ela não tem culpa.
- Desde quando você virou justiceiro? - ironizou Gustavo, cruzando os braços. - Estamos a dias do IPO, e você quer se meter num escândalo de falsificação? Isso pode destruir tudo.
- Até parece que eles iriam aceitar minha ajuda - retrucou Eduardo, rouco, contido. - Eu posso agir nos bastidores. Você sabe disso.
Gustavo suspirou e se sentou de frente para ele.
- Eduardo… o que você fez com ela foi uma merda. Eu não vou fingir que não foi. Mas isso não quer dizer que precise viver como se estivesse cumprindo pena.
Eduardo riu - um som seco, sem humor.
- Eu estou cumprindo. - Os olhos dele estavam distantes. - E mereço.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
- Você sabe o que ela deve estar passando agora? - murmurou ele. - Eu li o processo. Não posso deixá-la desprotegida outra vez.
- E o que vai fazer? - perguntou Gustavo, já sabendo a resposta.
Eduardo pegou o celular.
- Vou resolver isso.
Levantou-se de um salto.
Não chamou assistente, não revisou compromissos.
Apenas pegou o casaco e saiu.
O jato particular estava pronto em menos de uma hora.
Eduardo passou o voo inteiro em silêncio.
O laptop aberto exibia relatórios, laudos, cópias do processo - mas ele não lia.
A mente estava em Vivian.
Ela sempre fora correta, ética, íntegra.
Imaginá-la envolvida num escândalo desses era insuportável.
Mais ainda: imaginar que ela pudesse pensar que ele estava indiferente.
Ao pousar, foi direto à mansão do colecionador.
Um homem de meia-idade, arrogante, dono de uma das maiores coleções do país.
Foi recebido com surpresa.
Em menos de dez minutos, o nome “Braga” abriu todas as portas.
- Eu vim resolver isso - disse Eduardo, direto. - Quero que o senhor retire o processo.
O colecionador arqueou as sobrancelhas.
- A questão é simples, senhor Braga. Paguei caro por uma obra falsa.

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