Vivian
A solução veio fácil demais.
Vivian mal acreditava quando o colecionador pediu desculpas, explicando que a confusão havia sido “um mal-entendido de transporte”. O problema teria acontecido durante o envio da obra - uma falha de logística, segundo ele, sem qualquer responsabilidade da galeria.
As palavras pareciam ensaiadas, mas ninguém quis contestar.
Depois de dias de tensão, manchetes negativas e advogados por todos os lados, aquilo soava como um milagre.
Vivian ouviu as desculpas em silêncio, com um sorriso contido, sem saber se devia agradecer ou apenas aceitar e seguir.
Matheus, ao seu lado, estava radiante. O alívio estampado no rosto, ela também estava aliviada, mas uma ponta de dúvida fervia dentro dela.
Quando saíram do hotel, o céu de fim de tarde tingia o horizonte de um laranja suave. Vivian inspirou o ar frio e sentiu os ombros finalmente relaxarem.Conseguiu respirar sem o peso de um processo e da culpa sobre os ombros.
- Acabou - disse Matheus, abrindo um sorriso largo, quase menino. - Conseguimos, Vivian.
Ela assentiu, o olhar perdido no chão de pedras.
- É… acabou.
Mas a voz dela não tinha a mesma convicção.
O jantar veio como uma comemoração espontânea.
Matheus insistiu para que fossem a um pequeno restaurante francês nas redondezas do hotel.
Parte dela queria apenas um banho e silêncio, mas a outra - exausta, emocionalmente vazia - cedeu à gentileza dele.
A mesa era pequena, coberta por uma toalha de linho branca. Havia flores num vaso de cristal e duas taças de vinho tinto.
Matheus fez questão de escolher o vinho - o mesmo que, segundo ele, haviam servido no primeiro evento que fizeram juntos na galeria.
Vivian sorriu educadamente, tentando corresponder à leveza dele.
Durante os primeiros minutos, o jantar foi realmente uma comemoração.
Eles riram, lembraram dos dias tensos, falaram sobre os próximos planos da galeria.
Vivian se sentia grata - Matheus havia sido um amigo, um apoio constante desde que voltaram a se encontrar, um refúgio na fase em que tudo desabava.
Mas, conforme o céu escurecia, ela percebeu que algo mudava.
O olhar dele demorava demais sobre ela.
As palavras vinham mais suaves, o tom mais baixo.
O sorriso dele não era mais de amigo, era de homem.
E ela soube - antes mesmo que ele fizesse qualquer gesto - que aquele momento estava prestes a mudar.
- Você merece estar feliz, Vivian - disse Matheus, com a voz rouca. - Tudo isso que passou… já era hora de as coisas darem certo pra você.
Ela baixou os olhos, desconcertada.
- Ainda estou tentando entender o que é dar certo - respondeu, com um sorriso frágil.
- É simples - ele disse, aproximando-se um pouco. - Dar certo é poder sorrir de novo… sem o peso do passado. As palavras dele pairaram no ar, doces e perigosas.
Vivian quis responder, mas a garganta travou.
Matheus estendeu a mão, roçando de leve os dedos nos dela sobre a mesa.
Ela não recuou - e talvez esse tenha sido o erro.
Por um instante, deixou-se envolver pela delicadeza do toque.
Era agradável, seguro.
Não havia tensão, nem promessas quebradas.
Era o tipo de carinho que ela merecia - simples, sincero.
Mas quando ele se inclinou sobre a mesa e seus rostos ficaram próximos, o coração dela reagiu antes da razão.
Uma lembrança atravessou sua mente com força: o toque firme de Eduardo, o timbre rouco dizendo seu nome, o calor de um beijo que ainda queimava na memória.
E então tudo ruiu.
Vivian desviou o rosto, o corpo rígido.
- Matheus… eu… - murmurou, sem conseguir concluir.
Ele recuou, sem disfarçar o embaraço.
- Desculpa. Eu… achei que você quisesse também.
- Não - disse rápido demais, e depois suavizou. - Quer dizer… eu não sei. Só não estou pronta, Matheus.
O silêncio que se seguiu foi constrangedor.
Os dois desviaram o olhar, o clima leve do jantar se desfez no ar como fumaça.
Matheus respirou fundo, tentando sorrir, mas o sorriso morreu pela metade.
- Tudo bem - disse, finalmente. - Eu entendo.
Vivian quis acreditar que ele realmente entendia. Mas o olhar dele, por um breve instante, mostrou a frustração de quem desejava mais do que amizade.
As malas estavam no canto, intactas.
Vivian tirou os sapatos, sentou-se na cama e ficou olhando para o nada.
O corpo estava exausto, mas o sono parecia distante.
As palavras de Matheus ecoavam na cabeça - dar certo é poder sorrir sem o peso do passado.
Mas como deixar o passado, quando ele ainda era parte de quem você é?
Levantou-se, foi até a janela.
Lá fora, as luzes da rua piscavam, refletindo nos vidros como pequenas constelações.
Vivian apoiou a testa no vidro frio e respirou fundo.
Desde o divórcio, repetia a si mesma que Eduardo fazia parte de um passado que precisava morrer.
Que o amor que sentia era apenas um vício emocional, uma lembrança confusa de algo que nunca foi de verdade.
Mas o que sentiu naquela mesa - o aperto no peito, o bloqueio, o reflexo automático de se afastar - provava o contrário.
Ainda o amava.
Contra toda lógica. Contra tudo o que ele fez.
A diferença era que agora ela não queria mais aquele amor.
Não queria mais se perder tentando salvá-lo.
Vivian passou a mão pelo braço ainda com cicatrizes do acidente.
A dor física havia passado, mas a emocional ainda deixava marcas invisíveis.
Deitou-se devagar, cobrindo-se até o queixo.
O travesseiro tinha cheiro de novo - impessoal, neutro, como a vida que ela tentava construir.
Fechou os olhos, e por um instante, e foi o rosto dele que preencheu sua mente.
Na manhã seguinte, quando o sol entrou pelas cortinas, Vivian acordou com uma leve dor de cabeça e a sensação de que algo havia mudado.
Matheus a esperava no café, sorrindo como sempre, mas com uma distância respeitosa nos gestos.
Tomaram café juntos, falando de trivialidades - a próxima exposição, o novo artista que estavam negociando.
Nenhum dos dois mencionou a noite anterior.

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