Eduardo
O carro alugado cortava as curvas da estrada de Serra Azul em alta velocidade. As mãos de Eduardo apertavam o volante com força, os olhos fixos na pista, mas a mente vagando entre as lembranças que ele tentava apagar.
Do lado de fora, o anoitecer tingia o céu. Do lado de dentro, o silêncio era absoluto - só o som do motor e o eco dos pensamentos.
Ele não viu o beijo, mas viu o suficiente.
Vivian rindo, o olhar brilhante diante de Matheus, o corpo inclinado na direção dele. Aquilo bastava.
A imagem se repetia como um disco arranhado. Cada vez que ele piscava, via de novo - o rosto dela iluminado por velas, o gesto suave de tocar o cabelo atrás da orelha, o olhar cúmplice.
Era como se tudo que fora dele agora pertencesse a outro homem.
O rádio, sintonizou uma estação, e os acordes de uma canção de amor começou a preencher o silêncio do carro. Eduardo desligou o som de imediato, o maxilar tenso.
- Droga... - murmurou, com os olhos marejados.
O peito doía, mas não era só de ciúme - era o peso de uma vida inteira construída sobre orgulho e arrependimento.
No acostamento, viu a placa indicando o aeroporto. Acelerou.
“Acabou”, pensou. “Agora sim acabou de verdade.”
O jatinho particular o esperava na pista. Eduardo subiu as escadas com um ar cansado, o corpo pesado como se cada passo custasse um pedaço de vida.
O piloto o cumprimentou com respeito, mas ele apenas acenou em silêncio e foi direto para a poltrona de couro. Pediu uísque antes mesmo da decolagem.
Enquanto o avião ganhava o céu, Eduardo afrouxou a gravata e olhou pela janela. As nuvens pareciam lençóis brancos encobrindo o mundo abaixo.
Lá embaixo, deixava tudo: Serra Azul, o restaurante, Vivian.
E, talvez, o último pedaço do seu coração.
O primeiro gole de uísque queimou a garganta, o segundo já parecia água. Ele queria apagar, esquecer, desaparecer dentro daquele copo. Mas a memória era mais forte.
Veio o primeiro bilhete de amor.
Eles tinham quatorze anos.
Ela colocou o papel dobrado dentro da caixa de lápis de cor no dia do aniversário. “Pra colorir o mundo”, dizia, com a letra delicada e o desenho de um coração.
Ele nunca jogou fora aquele bilhete - ainda o guardava, amarelado pelo tempo, dentro de uma gaveta trancada.
Lembrou-se também das tardes no parque, das risadas fáceis, do toque suave das mãos dela sobre as dele quando o mundo ainda parecia simples.
E o primeiro beijo… doce, hesitante, cheio de promessas que o tempo se encarregaria de destruir.
Eduardo fechou os olhos e suspirou.
- Eu destruí tudo… - sussurrou para si mesmo, a voz rouca.
O jatinho tremia levemente, atravessando uma faixa de turbulência, mas ele mal percebia.
A dor era outra - vinha de dentro, no lugar que ele passou anos ignorando.
Quando o orgulho se desfaz, sobra só o vazio.
Pegou mais uma dose.
O uísque queimava menos do que a lembrança.
Aos poucos, o corpo começou a reagir. Uma dor aguda subiu do estômago para o peito, depois para a garganta. Tossiu. Uma vez. Duas. Quando limpou a boca com o lenço, o vermelho manchou o tecido.
Eduardo olhou a mancha, incrédulo.
- Não… não agora… - murmurou, tentando engolir o pânico.
O piloto, sem perceber o que acontecia atrás, anunciou a previsão de pouso em menos de uma hora.
Eduardo apenas encostou a cabeça no encosto e fechou os olhos, a respiração entrecortada.
Mas o único som era o apito constante das máquinas.
- Pressão caindo!
- Vamos preparar a transfusão!
Eduardo tentou levantar a mão, mas o corpo não obedeceu.
Apenas murmurou algo imperceptível.
Horas depois, o quarto estava em silêncio.
Eduardo dormia, ligado a tubos e monitores. O rosto pálido contrastava com os fios escuros do cabelo desalinhado.
Do lado de fora, o médico conversava com o Gilbert Braga:
- O quadro é grave. Ele precisa de repouso absoluto.
- Façam tudo o que for necessário.
- Os melhores especialistas estão em regime de plantão, Senhor não se preocupe, apesar da gravidade ele vai ficar bem.
Na penumbra, Eduardo se remexeu, preso entre o sonho e a dor.
Vivian aparecia diante dele - sorrindo, como antes, com o mesmo vestido do dia do pedido de casamento.
- Não posso… morrer agora… - sussurrou, quase implorando ao vazio. - Você precisa saber que eu… que eu…
O que queria dizer, ele mesmo não sabia. Que a amava? Que se arrependera? Que tinha falhado miseravelmente? Que ele a amava muito antes que ela? Talvez tudo junto.
Ele estendeu a mão, tentando tocar, mas ela se afastou.
E o vazio voltou a abraçá-lo.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Esposa Desprezada: O CEO Vai Implorar Por Amor
A história é boa, pena que hoje em dias, autores usem a IA para criar os enredos. Frases e modelo de escrita que estão saturadas. A gente lê e já sabe que houve uso da IA. Está difícil achar alguém que não use. Esses dias li uma história da Amazon, chamada "Um ponto de partida" da Jay Roslyn e do começo ao fim, fui lendo e dizendo pra mim mesma "se tiver indícios de IA, nem leio mais. Mas não tinha até pq quando a autora escreveu, era 2018. Pensa em como fiquei feliz por algo tão natural e bem elaborado. Essa daqui também está natural, mas infelizmente, os vícios de linguagem da IA, estão presentes. No mais, eu até que gostei bastante....
Também não consegui lê os últimos capítulos inteiros, mais amei a história, e o final, não teve enrolação! Parabéns pra quem escreveu 👏🏼...
Eu amei o livro, a plataforma não cobra em real?!Fiquei sem o ultimo capitulo, mas gostei muito da história....