Quatorze anos antes…
Vivian
A mansão dos Braga era tão grande quanto silenciosa.
Mas naquela tarde, um som conhecido cortava o ar como um trovão.
Um estalo seco, proibido de se comentar - mas todos sabiam o que significava.
Eduardo estava de pé no centro da sala de estudos.
A janela alta deixava entrar um feixe de luz dourada da tarde, e a claridade só realçava o medo em seu rosto.
- Segundo lugar? - a voz do avô soou como um trovão.
Na mão direita, ele segurava a palmatória de madeira escura, já gasta pelo uso.
- Um Braga nunca fica em segundo lugar, garoto!
Eduardo tentou falar, mas as palavras morreram na garganta.
O velho se aproximou. Cada passo fazia o chão ecoar.
- Eu estudei, senhor... - balbuciou. - Eu... só errei uma questão.
- Uma questão! - repetiu o avô. - Não tente se desculpar! A garota do Vicente estuda com você e não errou essa questão!
Do lado de fora da sala, Vivian se encolheu.
Ela sempre ia estudar com Eduardo depois das aulas. Gostava daquele horário - desde que se conheceram aos oito anos, ele se tornara seu melhor amigo.
Apesar de calado e reservado, Eduardo era leal. E desde que começou a estudar na escola onde ela era bolsista, nenhum riquinho se atreveu a implicar com ela.
Ela sentiu o estômago revirar.
Outro estalo. Depois mais um...
A vontade de correr até lá era quase física.
Mas se lembrava da última vez.
Tinha apenas onze anos quando o viu sair do castigo com a camisa suja de sangue. Tentara se aproximar, oferecer ajuda - e ele simplesmente a ignorou.
Passou semanas sem dirigir-lhe a palavra.
Vivian entendeu, então, que Eduardo não suportava ser visto como fraco.
E o que mais doía era que ele nem percebia o quanto isso o tornava humano.
O silêncio que se seguiu ao último golpe pareceu ensurdecedor.
Ela esperou o som dos passos pesados do avô se afastando e, só então, deixou o esconderijo atrás da pilastra.
Caminhou devagar até a porta da sala de estudos, respirou fundo e empurrou a maçaneta.
Precisava fingir normalidade.
Eduardo estava sentado, os olhos fixos no caderno, o rosto ainda vermelho. As mãos tremiam levemente. O uniforme branco da escola trazia marcas discretas de suor.
Vivian sentiu um nó na garganta, mas disfarçou.
Precisava agir como se nada tivesse acontecido.
Ela segurava uma pequena caixa de doces - presente que ganhara dos pais por ter ficado em primeiro lugar na avaliação.
Colocou a caixinha sobre a mesa.
- Trouxe pra gente comer enquanto estuda. - Forçou um sorriso, sentando-se ao lado dele. - Você precisa de açúcar pra aguentar as contas de trigonometria.
Ele ergueu o olhar.
Por um instante, Vivian viu algo nos olhos dele - vergonha, talvez. Dor. Ou raiva.
Tentou não olhar demais. Fingir normalidade era o único jeito de protegê-lo.
- Parabéns pelo primeiro lugar. - disse ele, baixo.
- Obrigada. - respondeu, sem pensar. - Mas, sinceramente, não acho que mereci. Aquela prova estava ridícula.
- Claro que mereceu. - Ele mordeu o doce, desviando o olhar. - Você é a melhor. - Ele falou com sinseridade.
Vivian quis dizer que ele também, que só tinha errado uma questão, que o avô dele era um homem cruel e ultrapassado.
Mas as palavras ficaram presas.
Falando aquilo em voz alta, ela sabia, só criaria um abismo entre eles.
Sabia o motivo, mas fingiu não perceber.
Foi então que a porta se abriu.
Cristina entrou com uma bandeja prateada.
- Que bonito. - disse, o tom meloso disfarçando o veneno. - O jovem senhor Braga e sua... tutora particular.
Vivian se endireitou, sentindo o coração acelerar.
Eduardo continuou sentado, imóvel.
Cristina colocou a bandeja sobre a mesa com força, e o suco respingou nos papéis.
- Trouxe um lanche. Você precisa se alimentar pra ver se o cérebro melhora, querido. - Ela olhou para Vivian com um sorriso de escárnio. - Quem sabe aprende algo com a neta do mordomo.
Vivian sentiu o rosto corar, mas manteve o olhar firme.
Eduardo apenas baixou os olhos, calado.
- Com licença. - Cristina se virou e saiu, satisfeita com o estrago.
Por alguns segundos, o silêncio pesou.
Vivian respirou fundo e murmurou:
- Ela parece a Lady Tremaine da Cinderela. Só faltou o gato gordo e o castelo.
Eduardo a olhou, surpreso - e então riu.
Riu de verdade.
Um som curto, rouco, quase incrédulo, mas real.
Vivian riu junto, até que os dois se dobraram de tanto rir, abafando o som com as mãos para não chamar atenção.
Foi um instante simples, quase bobo - mas ela nunca esqueceria.
Porque naquele momento, entre risos contidos e cadernos abertos, ela viu algo que ninguém mais via: o garoto por trás do nome Braga.
Não o herdeiro arrogante, não o neto do patriarca - apenas um menino tentando sobreviver num lugar que o punia por ser humano.

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