Quatorze anos antes… Eduardo
Sempre achou engraçado como o som do sinal da escola parecia o mesmo todos os dias - estridente, impessoal, quase autoritário.
Mas naquela manhã, ele não conseguia pensar em nada além da nova cartinha que encontrara dentro do armário.
O envelope lilás, dobrado com cuidado, tinha o mesmo perfume leve das outras - algo entre lavanda e papel novo.
Nenhuma assinatura. Só uma letra delicada, redonda, mal disfarçada que ele reconheceria em qualquer lugar.
“Você merece o mundo, mesmo que ainda não acredite nisso. Um dia, vai enxergar o que eu vejo em você. Te amo!”
Eduardo dobrou o bilhete devagar, tentando não sorrir.
Ele já sabia. Todo mundo sabia.
As cartas vinham quase todos os dias - e todas eram da mesma pessoa.
Vivian.
Ela achava que estava enganando alguém, mas os bilhetes tinham o jeito dela: as palavras doces, o cuidado, a forma como falava com o coração.
E ele… fingia não saber.
Talvez porque gostasse desse jogo silencioso - ou talvez porque tinha medo do que aconteceria se reconhecesse o que sentia.
Vivian era sua melhor amiga. E também a única pessoa no mundo que parecia enxergar o garoto por trás do sobrenome Braga.
- Outra, cara? - A voz de Gustavo o arrancou dos pensamentos. - Juro, se eu recebesse uma dessas, enquadrava.
- Devia estar fazendo coleção - completou Lucas, com o jeito debochado de sempre.
- Aposto que é da Vivian. - Gustavo deu um leve empurrão no ombro dele. - Todo mundo sabe, Braga. A garota é louca por você. Eduardo franziu o cenho. - Vocês viajam demais.
Lucas suspirou, teatral. - Se eu tivesse metade dessa sorte… Se for mesmo a Vivian, eu morro de coração partido na hora.
- Cala a boca, Lucas - disse Eduardo, tentando disfarçar o sorriso. - E, sério, não fala isso perto dela.
- Relaxa, ninguém vai estragar o seu conto de fadas - provocou Gustavo. - Mas, ó, pacto entre amigos, hein?
Eduardo arqueou uma sobrancelha. - Pacto?
- É. - Lucas ergueu a mão como quem jura solenemente. - Nenhum de nós dois pode ficar com a Vivian.
Eduardo riu, meio sem graça. - Não vai precisar, ela não ficaria com nenhum de vocês. Eles riram também, mas por dentro Eduardo sentiu algo apertar. Porque, na verdade, ele queria ser o que ela queria.
O intervalo para a aula de Educação Física começou com o habitual barulho de vozes, bolas quicando e uniformes sendo trocados às pressas.
Eduardo caminhava pelo corredor, distraído, até lembrar que tinha esquecido as joelheiras no armário.
O caminho de volta passava em frente à sala onde as meninas se trocavam antes da aula.
Ele não pretendia parar.
Mas uma risada alta o fez hesitar.
Reconheceu a voz de Vivian entre as outras - clara, leve, com aquela risada que ele conseguia distinguir mesmo em meio a uma multidão.
Por instinto, diminuiu o passo.
- Coloca que ele tá muito gatinho desde que começou a malhar! - disse uma das meninas, em meio a gargalhadas.
- Ah, escreve também que ele é o mais bonito da escola! - gritou outra.
Eduardo franziu o cenho. A curiosidade falou mais alto.
Pela fresta da porta, viu Vivian sentada no banco, um papel sobre os joelhos. O mesmo tipo de papel das cartas.
O coração dele acelerou.
- Eu não quero escrever essas coisas, - ela disse, sorrindo, mas parecendo envergonhada. - Não é esse tipo de mensagem que eu quero mandar.
- Ah, qual é, Vivi! - respondeu Marina, a capitã do time de vôlei. - O cara é um colírio e você quer escrever sobre o quê, a alma dele?
Mais risadas.
Eduardo ficou paralisado, o corpo inteiro tenso.
A sensação era estranha - como se estivesse invadindo um lugar onde não devia estar, mas sem conseguir se afastar.
Vivian abaixou o olhar para o papel e respondeu, num tom mais sério:
- Eu só quero que ele saiba que tem alguém que se importa.
As risadas diminuíram.
Amanda, a capitã da natação, cruzou os braços.
O resto do dia passou em um borrão.
Durante o treino, ele errou passes simples, esqueceu instruções do técnico.
Gustavo gritou com ele duas vezes. Lucas perguntou se estava tudo bem.
Eduardo só respondeu com um aceno vazio.
Quando o treino terminou, ele foi direto pro vestiário.
Lavou o rosto na pia, deixando a água fria escorrer pelo pescoço, tentando apagar o peso que sentia no peito.
Mas não adiantava.
A imagem dela - rindo com as amigas, dizendo que sentia pena - não saía da cabeça.
Ele abriu o armário e tirou o bilhete.
Olhou as palavras de novo.
“Um dia, vai enxergar o que eu vejo em você.”
Agora, tudo soava diferente.
Não era admiração.
Era piedade.
Ela via nele o garoto ferido, o neto humilhado, o que precisava ser salvo.
E Eduardo não queria ser salvo.
Cometeu o erro de achar que era amado.
Amassou o bilhete com força até virar uma pequena bola de papel.
Depois o jogou no lixo e ficou olhando o cesto, parado, por longos segundos.
No reflexo do espelho, viu um rosto que mal reconhecia: o olhar duro, o maxilar travado.
Era ali, naquele banheiro gelado, que o garoto doce começou a desaparecer.
E no lugar dele, nascia o homem que aprenderia a nunca mais precisar de ninguém.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Esposa Desprezada: O CEO Vai Implorar Por Amor
A história é boa, pena que hoje em dias, autores usem a IA para criar os enredos. Frases e modelo de escrita que estão saturadas. A gente lê e já sabe que houve uso da IA. Está difícil achar alguém que não use. Esses dias li uma história da Amazon, chamada "Um ponto de partida" da Jay Roslyn e do começo ao fim, fui lendo e dizendo pra mim mesma "se tiver indícios de IA, nem leio mais. Mas não tinha até pq quando a autora escreveu, era 2018. Pensa em como fiquei feliz por algo tão natural e bem elaborado. Essa daqui também está natural, mas infelizmente, os vícios de linguagem da IA, estão presentes. No mais, eu até que gostei bastante....
Também não consegui lê os últimos capítulos inteiros, mais amei a história, e o final, não teve enrolação! Parabéns pra quem escreveu 👏🏼...
Eu amei o livro, a plataforma não cobra em real?!Fiquei sem o ultimo capitulo, mas gostei muito da história....