Bernardo Thomson
Alguns dias depois:
Estou no consultório, ansioso pra caralho, por causa da conversa que eu tive com o Paulo e Arthur mais cedo, antes da reunião dos acionistas…. que foi uma bosta, diga-se de passagem. Nada diferente!
Eu não estou me sentindo confortável com essa resolução do Arthur de chantagear Sílvio. E por causa de mulher... Quando meu amigo se tornou tão passional assim, pra decidir negócios por causa de ciúmes?
Porque está na cara que aquele discurso pronto que ele fez, que sempre quis tirar o Sílvio dos hospital, não é o verdadeiro motivo.
Eu ainda acho que ele tinha que deixar isso com os velhos.
Ainda bem que Paulo conseguiu convencer a ele a conversar com tio Armando antes de fazer qualquer coisa. Se existe uma pessoa que pode por um pouco de juízo na cabeça dele, com certeza é nosso tio.
Escuto meu celular tocar e sorrio quando vejo o número.
Ele não morre nem tão cedo. Espero de verdade que isso não aconteça!
-Oi tio…
-Oi amor do titio, pode falar?
Eu tinha mandado mensagem para ele pra saber que horas ele ia está em SP. Mais ele disse que seria um bate/ volta... Fiquei chateado... Estou com muita saudade…
-Oi tio... Está onde?
-Voltando para Fortaleza para encontrar com sua tia. Só vim mesmo conversar com Arthur e com o Dr. Marcelo. Estou te ligando pra dizer que titio está morrendo de saudades …
-Eu também tio... Precisava conversar um pouco.
Ele sempre me faz ver as coisas com outras perspectivas. Neste momento em que vivo, precisava dele perto de mim.
-Titio está sabendo!!! Mas eu já estou resolvendo o que está tirando a sua paz, não se preocupe.
Merda! Arthur já abriu a boca... Não tem como esses infelizes guardarem as coisas? Que inferno!
-Tio...Arthur já foi fazer fofoca???
-Não, não não... Não é fofoca, é informação. Ele achou que eu devia saber o que aquele irlandês andava fazendo... Nada demais…
-Tio eu não quero que vocês briguem…
-Às ações são suas Bernardo. Não vai acontecer o que seu pai disse... Afinal, temos uma palavra dada, e esta palavra é considerada lei em se tratando de nós três. Acordos firmados por nós, é lei…
-Eu não me importo com as ações.
-Eu sei que não... Você se importa mesmo é de perder a "pouca" admiração que acha que seu pai tem por você, para seu irmão... Adivinha? Não é pouca não... Seu pai te admira muito, principalmente depois que você saiu de um garoto problemático para um médico brilhante, mas ele é orgulhoso demais pra te dizer isso... E ele não sabe lidar com você... Nunca soube... Seu pai odeia ser contrariado, e você parece que nasceu pra fazer isso…
Eu sorrio... Tenho que concordar com ele.
-Tio, eu não queria ter que conviver com Willian... Porque ter que olhar para ele todos os dias, é ter que conviver com a versão do filho perfeito que meu pai queria que eu fosse…
-Bom, isso vai ser algo que você vai ter que trabalhar. Essa teimosia de que está muito bem, vivendo longe de seu irmão, é uma mentira que você conta para si mesmo a décadas... Vocês são irmãos e se amam... Se não se amassem não haveria tanta mágoa...Eu lembro de quando era um bebê e ele passeando com você pelo jardim, empurrando carrinho...Tá na hora de deixar as desavenças de lado e aceitar Bê, que você é diferente de seu irmão…
-Isso que o senhor disse, parece que rolou em outra vida.
- Foi nessa vida, e tenho certeza que esse sentimento que você tem por Arthur e Paulo, também tem pelo seu irmão. Só está guardado aí, camuflado embaixo de muita raiva, ciúmes e mágoas. Está tudo bem ser diferente... Você não é obrigado a ser ele, meu filho... Vocês não são mais crianças... E evitar este encontro para o resto da vida, não vai fazer com que William suma da vida de seu pai e da sua... Você tem que encarar meu filho, e já está na hora…
Eu suspiro.
-Não quero que vocês briguem por causa de mim... Então esquece esse lance das ações... Eu também acho que ele vai ficar puto se souber que fui fazer queixa com vocês.
-Não se preocupe, ninguém vai brigar com ninguém. Ok? Promete para o titio que vai pensar em se entender com seu irmão. Ainda dá tempo de mudar essa história…
-Tio …
-Promete Bernardo... Não seja cabeça dura como seu pai! Você é um ser humano muito melhor que ele. Eu sei que esse coração está doido pra acertar as coisas…
-Ok tio, estamos com ele nessa! Ele sabe que pode contar conosco.
-Não vai dar tempo de ligar para o Paulo, pois está quase na hora do voo. Então fale com ele por mim. Eu confio em vocês! Sei que o hospital está em boas mãos!
-Obrigada tio, boa viagem e mande lembranças para a tia.
-Mandarei... Em breve vocês terão surpresas! Nós aguardem!
Sorrio... O que esses velhos vão inventar agora? Ele e Tia Eleonora estão viajando o mundo na aposentadoria deles. O que nos faz sentir falta deles sempre coladinhos a nós.
-Tio, não vai pular de paraquedas né?
Ele solta uma gargalhada e diz:
-Boa idéia! Tchau amor do titio... Juízo!
-Tchau…
Viro minha cadeira do consultório em direção a janela envidraçada, olhando para os diversos carros que passam na avenida e os vários prédios que existem ao redor do hospital. Uma visão que me acalma.
Conversar com tio Armando, é sempre um prazer! Ele tem o dom de me acalmar. A ansiedade que sentia antes de atender o telefone, foi embora como num passe de mágica. Quando estamos ao lado dele, achamos que nenhuma dificuldade vai nos engolir. Era assim que eu tinha que me sentir ao lado do meu pai.
De uma certa forma até me sinto, quando ele põe de lado seus interesses e resolve realmente me ouvir. Mas na maioria das vezes isso não acontece.
É uma pena!
Sempre lamentarei por não conseguir ter o mesmo vínculo que Arthur e Paulo têm com seus pais.
Mas eu tenho esse vínculo com minha mãe.
Sorrio lembrando daquela baixinha que tem sua luz própria e uma força que me deixa orgulhoso!
Esse vínculo com ela me basta!!!

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Redenção do Ogro
A história desse livro é muito massa e uma Pena que está postado a história toda...