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A Redenção do Ogro romance Capítulo 83

Arthur Albuquerque

Alguns dias depois

Olho para meu relógio e para o restaurante onde Beto acabou de estacionar. Cheguei na hora, apesar do trânsito, achei que não fosse dar tempo.

Meu pai me chamou para esse almoço em cima da hora. Deve ser importante.

Ele costuma me chamar para almoçar com alguns amigos de faculdade dele, de vez em quando. E dessa vez é o Dr. Sérgio Montenegro. Um respeitado cardiologista, que está no ramo há mais de cinquenta anos.

Geralmente quando isso acontece é porque eles tem algum caso para discutir comigo.

É bem normal Sérgio pedir opinião sobre os diversos casos que chegam na sua clínica, já que ele não é um cirurgião. Eu até gosto desses almoços, me fazem crescer na profissão. É sempre bom ouvir aqueles que estão há bastante tempo no mundo da cardiologia.

Eu não opero muito hoje em dia. Fico mais tempo administrando o hospital do que outra coisa, mas existem casos que não dá para ignorar.

Espero que seja um desses, porque me tirar da minha casa, junto da minha recém esposa, tem sido difícil ultimamente.

Eu não sabia que casar seria tão bom, se soubesse não tinha esperado dez meses para isso. Duda está bem mais confiante e segura com o casamento. E eu? Também. Agora sei que ela é minha mulher no papel também, o que faz com que o meu sentimento de pertencimento e posse seja muito maior do que antes

Ahhh pai!

Só você pra me fazer sair de casa em plena sexta feira, quando ela não têm aula na faculdade e estaria o dia todo comigo. E num almoço, que para nós é sagrado.

Bufo. Beto abre a porta para mim e eu agradeço indo em direção ao restaurante com Barreto atrás de mim. Logo avisto eles sentados numa mesa.

-Pode ficar aqui fora Barreto, não é necessário entrar.

-Sim Senhor! -Ele fala pelo comunicador e se afasta . Vou até eles e sorrio.

-Olá Doutor Sérgio, como o senhor está?

-Bem... E você Arthur, como vai a vida de casado?

-Maravilhosa! Fiquei triste quando soube que o senhor não poderia ir ao nosso casamento.

-É... Estava viajando. Mas no batizado do primeiro filho estarei lá.

Eu gargalho, é sempre assim. Antes de casar, todo mundo cobra o casamento. Depois que casa, as pessoas cobram os filhos. Ninguém está satisfeito.

Meu pai gargalha e diz:

-Deus te ouça meu amigo!

Eu reviro os olhos.

-Já pediram?

-Sim, filho ... Papai pediu de entrada aquelas bruschetta com queijo de cabra que você ama.

-Obrigada pai... Então ... O que o senhor me conta de novo, doutor?

-Estou com um caso no consultório que você talvez se interesse. Prolapso da válvula mitral grau médio, se encaminhando para grave.

Falou uma palavrinha mágica: válvulas.

Gosto de troca de válvulas e gosto de cirurgias de peito aberto. Com as modernidades de hoje, são poucos os procedimentos que precisamos abrir o peito do paciente. Há muito cirurgias experimentais em andamento, que podem ser feitas através de um cateterismo ou um corte pequeno. E eu fico de olho nelas o tempo todo. Sempre estamos especializando nossos médicos nelas, mas a troca de válvulas é um dos procedimentos que mais gosto de fazer, pois minha irmã morreu com esse defeito. Eu acabei me especializando neste procedimento por causa de um trauma na família. Não quero ver pessoas que eu amo, passando por isso novamente. Começo a entender porque meu pai me pôs em contato com Sérgio.

Eu disse que o lance seria interessante.

Na época que minha irmã nasceu, as cirurgias eram muito mais perigosas do que hoje em dia. Além dos exames serem demorados, e a cirurgia no coração de um recém nascido era difícil dar certo, por causa de diversos fatores. Perdemos ela porque na época meu pai não teve tempo o bastante para salvá-la.

-Quantos anos tem o paciente?

-24.

Me surpreendo. O normal são pacientes muitos novos ou de idade avançada apresentarem defeitos na válvula mitral. Aos 24 não costumamos diagnosticar esse tipo de doença.

-Então já estava doente há bastante tempo?

-Provavelmente. Ela só começou a sentir os sintomas a pouco tempo. Encadeados por uma síndrome de pânico.

Fico parado olhando para ele. É complicado tratar do coração de um paciente com depressão, ansiedade e pânico. Porque essas síndromes mexem bastante com os órgãos vitais. Quando eles entram em crises, o coração acelera, há uma variação de pressão, que pode desencadear uma piora no quadro geral. Se as crises são frequentes, pior ainda. Por isso é importante o acompanhamento médico.

Além disso, eu estou curioso. Quando é defeito genético esse problema costuma ser diagnosticado na maternidade. E se não precisar de uma cirurgia de emergência, ele é monitorado. Quando é causado por febre reumática ou qualquer outra doença, também deve ser monitorado. Então porque esse paciente não tinha monitoração?

-Eu não entendi, doutor... A paciente não sabia.

-Não, a paciente é órfão. Tem um histórico de depressão com síndrome do pânico diagnosticado com 16 anos. Ela faz tratamento desde essa idade, não sabe se teve febre reumática e não sabe se é congênito.

-Como ela tem uma doença que facilmente poderia ser percebida como uma ausculta cardíaca. Quer dizer, os pais deveriam saber, só não falaram nada para ela.

-Eu não sei os detalhes, mais ela disse que a mãe nunca foi de levar ela no hospital quando ficava doente.

-Mais um caso de negligência?

-Provavelmente. O tipo de anomalia não parece ser congênito, apesar de eu não ser o especialista no assunto. Pra mim foi causado por febre reumática.

-Então se a mãe não tratou disso direito…

-O seu problema pode ser daí.

-Está muito ruim?

-Piorando. Agora começou a apresentar arritmias, desmaios e cansaço.

-Está tomando betabloqueadores?

-Sim... Ela já estava tomando, mas tive que recomeçar com outros tipos.

Ele pega uma folha que estava no seu colo e me mostra o final de uma anamnese.

-É pai... Você tinha razão... É um senhor caso!

-Eu não disse filho?! -Ele diz todo orgulhoso!

O mesmo problema da minha irmã.

E provavelmente se encaminhando para o estágio dela. Eu não posso ignorar isso, não é um caso para nenhum dos meus médicos. É um caso para mim.

-Qual foi o caminho que você sugeriu, doutor.

-Eu sei... você está me deixando nervoso...Eu confio que vai dar um jeito nisso. Eu estou com medo da reação do Bernardo.

Eu bufo…agora meu mano pira de uma vez.

Apesar de ele dizer que não está envolvido com Camila. Está... Até a raiz do cabelo…

E quando a ficha cair que ele não vive sem ela, porque vai cair... Leve o tempo que levar, eu tenho medo que seja tarde demais.

Além de tudo isso... Se ele descobrir que algumas pessoas da família sabiam e ele não , eu vejo aquele vulcão entrando em erupção. A começar pela Fernanda, segurança dela. Ela com certeza está escondendo isso do Bernardo. Camila não conseguiria esconder isso se ela não estivesse apoiando.

-Ele vai pirar…

-Vai... E vai sentir raiva! Porque todo mundo escondeu dele.

Eu passo a mão pelo cabelo de novo.

O que vou fazer!

Eu não posso contar para ele. Aliás, eu não posso contar para ninguém.

-Eu não posso ser antiético.

-Eu sei meu filho. E nem eu... Foi pedido um parecer, não podemos contar nada a ele em respeito ao Sérgio e a Camila. E se ela não quiser que ele saiba, ela tem direito disso .

Eu preciso me abrir com o Paulo. Pelo menos ele. Ele sempre me trás a razão quando não vejo saída para algo.

-Pai, eu preciso contar isso para o Paulo.

-Não pode…

- Eu tenho que contar, ele vai me ajudar a me manter equilibrado. Merda! E se ela não aceitar a minha ajuda? Ainda tem isso... Se ela escondeu isso de nós, ela não quer que eu saiba.

-Talvez ela não queira porque sabe que vai contar para o Bernardo. O Sérgio também vai ficar puto quando descobrir que conhecemos ela.

-O quê você queria que eu fizesse? Que eu acabasse com as chances de ver os exames que estavam disponíveis ali, na minha mão? Eu tive que fingir que não a conhecia.

-Eu sei meu filho... Eu entendi…

-Eu vou conversar com ele pelo telefone e explicar a situação. Se ele não quiser mais que eu entre no caso, eu mesma vou conversar com ela.Porque Camila não me procurou? Porquê? Talvez eu teria feito um tratamento diferente e agora ela não estaria nessa situação. E que mãe foi essa que não viu isso antes? Merda!

Eu bato na mesa.

Estamos na minha sala no hospital. Vim para cá para me acalmar, antes de ir pra casa e Duda perceber que nada estava bem.Meu pai vai até o bar e pega duas doses de whisky. Botando uma na minha frente.

-Toma isso…

Eu pego a dose e viro de uma vez.

Ainda bem que Bernardo está viajando. Ainda temos um tempo antes de eu começar a mentir para o meu melhor amigo.

Ele não vai me perdoar por isso, ele não vai…

Inferno!

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