As duas viraram a cabeça simultaneamente para a porta. Orlando entrou com o semblante fechado, seguido de perto por Fátima.
— Você não achou mesmo que apenas retirar a queixa resolveria tudo, não é? Estamos falando de uma vida, e o bebê ainda não está fora de perigo.
— Se houver um aborto, você será acusada de homicídio. E o crime de homicídio não se compara a uma simples agressão.
— A sua advogada está lá fora, quer que ela lhe dê uma aula de direito para entender a gravidade dessa situação?
Assim que Orlando terminou de falar, Fátima se aproximou de Clarice e, como fazia antigamente, segurou suas mãos com falsa intimidade.
— Clarice, querida, você é uma garota inteligente. Enquanto formos uma família, não haverá problema que não possamos resolver juntos, não concorda?
Clarice franziu a testa, sentindo profunda aversão ao toque de Fátima.
Ela puxou as mãos de volta, enquanto uma tempestade silenciosa se formava em seus olhos.
Olhar para aquele rosto hipócrita a fazia recordar os chás amargos que fora forçada a tomar durante dois anos, o que havia arruinado as suas chances de ser mãe.
— Uma família? Eu nunca ouvi falar de uma família que destrói a própria nora com remédios adulterados.
— Fátima, toda vez que lembro da atrocidade que você cometeu, sinto um nojo insuportável.
Fátima arregalou os olhos, chocada e claramente surpresa por ela saber da verdade.
Clarice levantou-se com um sorriso de escárnio.
— Se não quer que os outros saibam, o melhor é não fazer. Quem faz muita maldade, cedo ou tarde enfrenta as consequências.
— Já que não conseguimos chegar a um acordo, façam como acharem melhor. Não tenho tempo a perder com vocês.
Ao ver que Clarice estava prestes a sair, Orlando avançou e agarrou seu braço firmemente.
— Clarice, você não tem medo de ir para a cadeia?
Clarice desvencilhou-se violentamente da mão de Orlando.
— Me colocar na cadeia? Quero ver se você tem competência para isso.
Ela tinha Erasmo ao seu lado. Sem provas concretas, ninguém ousaria prendê-la.
— Orlando, já viu as notícias? Precisamos abafar isso o mais rápido possível. Com o tanto de olhos voltados para nós agora, as ações da Família Carneiro não podem sofrer outro baque.
Orlando recuperou a compostura e fez um sinal de cabeça para o assistente, que saiu da sala apressadamente.
Orlando sentou-se novamente, encostou-se na cadeira e massageou as têmporas.
— Eu sei, mas agora é a Clarice quem quer medir forças comigo. Para conseguir tirar aquelas matérias do ar, ela precisará tomar a iniciativa e ceder.
Fátima caminhou até a cadeira à frente de Orlando e, depois de ponderar bastante, falou:
— Orlando, já que a Clarice está sendo tão irredutível, nós devemos ceder um pouco. Ela não quer levar aquela funcionária medíocre com ela?
— Deixe que leve. Atenda à exigência dela primeiro.
Ao ver a expressão de impaciência no rosto dele, ela continuou a consolá-lo:
— Você ainda não percebeu? Clarice agora tem certas cartas na manga e não é mais a mesma mulher de antes.
— Usar as mesmas táticas do passado não vai mais funcionar para controlá-la. Ela amou você por cinco anos. Se você engolir o orgulho agora, agir com carinho, agradá-la e, aos poucos, despertar o amor que ela ainda sente por você, o seu sucesso será apenas uma questão de tempo.

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