Clarice sentiu, mais uma vez, uma ponta de inveja da futura esposa de Erasmo.
Ele pegou um roupão que estava próximo, vestiu-o e caminhou passando ao lado dela.
— Pronto. Eu não disse nada, e não é como se você já não tivesse visto antes. Aproveite que está aqui e me ajude a refazer o curativo.
Clarice só então abriu os olhos. Vendo que ele já estava devidamente vestido, percebeu que as ataduras de sua mão haviam sumido e o ferimento voltava a sangrar.
Apressou-se em segui-lo para refazer o curativo.
— Erasmo, o que foi aquele barulho de agora há pouco? Ah!
Antes de terminar a frase, sentiu os pés saírem do chão. Erasmo a havia erguido nos braços com uma só mão.
Por instinto, para não cair, ela passou os braços ao redor do pescoço dele.
— Por que você está descalça? O chão está frio.
Erasmo a colocou sentada na beira da cama, virou-se e foi buscar os chinelos dela.
Segurou suavemente o tornozelo de Clarice para ajudá-la a calçar os chinelos e, em seguida, pegou a caixa de primeiros socorros.
— Pronto. Agora cuide da minha mão.
Ele se sentou ao lado dela e estendeu a palma ferida.
Sem tempo para refletir sobre as atitudes desconcertantes dele, convenceu-se de que talvez estivesse apenas imaginando coisas.
Contudo, para quebrar o clima embaraçoso, Clarice decidiu puxar assunto.
— Erasmo, eu preciso te falar uma coisa.
— Pode falar.
— Estou pensando em me mudar para a casa da Adelina.
Erasmo ergueu o olhar para encará-la.
— Fui injusto com você em algo? Ou algum funcionário a desrespeitou?
Clarice se apressou em explicar.
— De jeito nenhum! É que eu estou com saudades da Adelina.
A aura de leve melancolia que o envolvia fez com que o coração dela se apertasse de maneira inexplicável.
Ela se levantou, foi até ele e, encarando-o com a mais absoluta sinceridade, declarou palavra por palavra:
— Erasmo, para mim, você é o homem mais incrível do mundo. Se ela não aceitou os seus sentimentos, é uma perda exclusivamente dela. Você merece alguém muito melhor.
Essa era a mais pura verdade vinda do fundo de seu coração. Aos olhos dela, Erasmo era insuperável.
Se a situação e a relação entre os dois não fossem tão complexas, ela certamente teria corrido atrás dele.
Um brilho fugaz passou pelos olhos do homem, mas logo se apagou. Ele voltou a encarar a lua pela janela.
— Clarice, eu a amo. Para mim, não existe ninguém melhor do que ela no mundo. Mas o coração dela já pertence a outro, e tudo o que eu desejo é a sua felicidade. É por isso que decidi abrir mão de tudo. Vou aceitar o casamento que a minha família quer. Já que não posso me casar com a mulher que eu amo, qualquer outra não faz diferença.
Ouvir aquilo partiu o coração de Clarice em mil pedaços. A compaixão e a dor por aquele homem eram indescritíveis.
No fundo, ela sabia como funcionavam os casamentos entre as famílias da alta sociedade; ali não existia lugar para a vontade própria.
Mesmo que Erasmo agora estivesse no controle do Grupo Financeiro Alves, ele continuava atado às correntes das obrigações familiares.
A Família Alves, em especial, era um ambiente cruel, onde a liberdade não passava de uma ilusão.

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