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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 211

"Lorena"

Os dias estavam virando semanas rápido demais. Já tinha um mês que eu estava de volta a casa da Dalva e no mesmo desespero de não conseguir emprego. E agora, que a minha Dalvinha passava a semana inteira morando no novo emprego, e às vezes até os finais de semana, o silêncio nesta casa parecia pesar mais, mesmo que a Marcelina não me deixasse sozinha, ela também estava muito quieta desde a última visita do Julian.

Na mesa da sala, o caderno de anotações exibia a minha contabilidade real. O dinheiro que eu havia guardado dos tempos da boate estava evaporando. A minha carteira estava quase vazia. O aluguel, a comida, as contas básicas do mês que eu fazia questão de dividir com a Dalva, não paravam para esperar que o meu coração se recuperasse... se é que um dia ele se recuperaria.

- Isso é muito estranho. - Eu comentei observando a caixa de entrada do meu e-mail vazia.

- Também acho, aquele engomadinho de merda vem aqui fala um monte de coisas, se acha no direito de me beijar daquele jeito e some. - A Marcelina resmungou distraída e eu tirei os olhos da tela do computador.

- Isso também é estranho, Lina, mas eu estava falando da falta de resposta para todos os currículos que eu tenho enviado.

Ela piscou e passou a mão pelo rosto, voltando a realidade. Eu não queria pressioná-la sobre o Julian, mas uma parte de mim estava torcendo para que ela o esquecesse, porque ele parecia tê-la esquecido.

- Nenhuma resposta de agência para mim também, Lô. Nenhuma. - A Marcelina me encarou com os olhos escuros brilhando de frustração. - Eu tentei até vagas de faxina no comércio local. Nada.

- Eu tentei de tudo também, Lina, mas parece que ninguém nessa cidade quer me contratar. - Eu respirei fundo e fechei os olhos. - E o Julian jura que não é o Albelini nos boicotando. Mas quem mais teria o poder de fechar todas as portas dessa cidade na nossa cara? Só ele!

- Não importa quem seja, Lô. - A Marcelina respondeu, colocando o celular sobre a mesa com um estalo seco. - O fato é que nós estamos a beira de passar necessidade. E só sobrou um lugar nesta cidade onde o sobrenome Albelini ou o boicote de sei lá quem não conseguem ditar as regras.

Eu travei, os meus lábios se abrindo em choque quando eu percebi o que ela estava sugerindo. E a persona da Scarlat dentro de mim, fria e calculista, estava concordando com a Marcelina por pura necessidade de sobrevivência.

- A Infernal, Lina? Você enlouqueceu? Se o Érick descobre... droga, o que eu estou dizendo... o Érick me chamou de puta e me jogou na rua. Ele ameaçou chamar a polícia para mim. Ele já me destruiu. - Eu respondi para convencer a mim mesma, o aperto cortante no meu coração. - Mas como você tem tanta certeza de que as portas da Infernal não se fecharão na nossa cara também?

- Eu sei que não. Quem dita as regras por lá não obedece ordens... - A Marcelina parou e refletiu por um momento. - Se bem que eu não sei se essa pessoa ainda considera a gente.

- Quer saber, Lina, foda-se! Eu não tenho mais nada a perder. Mas eu tenho dignidade para sustentar. Vamos voltar para onde tudo começou. E se essa porta também se fechar, nós vamos para outro lugar. - A minha voz saiu linear, cortante como uma navalha. Eu olhei para o relógio na rela do celular e me levantei da mesa. - Vamos! Vamos atrás do Barão.

- Vai, Barão, nós conhecemos o funcionamento da casa. Somos discretas. E eu sei que sempre fomos as suas melhores funcionárias e também sei que você está com três a menos, porque não nos substituiu e a piranha da Medusa te deixou na mão. - A Marcelina pressionou.

- Não! - O Barão respondeu de forma categórica, limpando o suor da testa e jogando o lenço sobre a mesa. - Vocês fizeram barulho demais por aqui. Atraíram a atenção de pessoas importantes de um jeito que não me convém. Eu gerencio segredos, garotas, não alvos corporativos. Os homens que vêm aqui não querem ser descobertos nem por suas mulheres e nem pela sociedade. A resposta é não. Sumam da minha boate antes que os clientes cheguem.

A Marcelina trincou os dentes, prestes a avançar e continuar insistindo, mas o toque estridente do celular em cima da mesa interrompeu o nosso momento de humilhar, rastejar e implorar.

O Barão franziu a testa ao olhar o visor. Na tela brilhava "A Fonte". O meu sangue gelou e eu senti algo errado ali. Os ombros do Barão tensionaram imediatamente, ele pegou o aparelho e deslizou o dedo pela tela, colando o aparelho no ouvido e mantendo os olhos fixos em mim.

- Fale! - O Barão atendeu.

Ele escutou atentamente o que lhe era dito do outro lado da linha. Eu conseguia ouvir apenas o zumbido dos geradores de som. O Barão ouviu a voz do outro lado da linha por longos segundos sem dizer uma única palavra. A expressão de tédio e autoridade dele mudou sutilmente. Os nós dos dedos dele ficaram brancos ao redor do aparelho. Quem quer que estivesse falando do outro lado da linha parecia ter nas mãos a guia da coleira do Barão.

- Entendido. Será feito exatamente como solicitou. - O Barão respondeu, a voz tensa. Ele desligou o celular e o colocou de volta na mesa, respirando fundo. Ele ajeitou o colarinho da camisa e nos encarou com um sorriso enigmático, perigoso e totalmente diferente de antes.

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