"Alice"
Nos livros que a Lolô lia para mim antes de dormir, os castelos eram brilhantes e as fadas madrinhas, depois que chegavam, nunca iam embora. Mas a minha casa não parecia mais um castelo... nem era mais brilhante. Parecia o estômago do lobo mau que comeu a Chapeuzinho. Escuro. Frio. Com cheiro amargo e azedo, não mais cheirando a doce de vitrine.
Eu me sentei em frente ao espelho do meu quarto, funguei e passei a escova no cabelo. Como a Lolô prendia o meu cabelo mesmo? Eu gostava tanto!Eu segurei um elástico de cabelo rosa, tremendo como se eu estivesse com frio, porque a minha casa agora estava sempre fria. Eu tentei puxar os fios para trás, me lembrando como a Lolô fazia todas as manhãs enquanto cantava baixinho pra mim. Ela cantava: "eu gosto de você; e gosto de ficar com você; meu riso é tão feliz contigo..."
Enquanto eu cantava como a Lolô fazia, eu tentei prender o cabelo, mas o elástico embolou e puxou o meu couro cabeludo. Doeu. Eu tentei de novo, apertei com força, mas os fios escorregaram. Quando soltei, o meu cabelo ficou todo torto. Uma metade amarrada, a outra caindo nos meus olhos, bagunçada. Ficou feio. Ficou errado. Uma lágrima quente escorreu pela minha bochecha e eu a limpei com a manga do casaco. A minha fada madrinha tinha sumido e eu nem conseguia prender o meu próprio cabelo.
- Cadê você, Lolô? - Eu abaixei a cabeça nos meus braços e chorei, porque eu nem sabia como procurar a minha Lolô. - Eu aposto que foi a bruxa da Sra. Adelaide que fez um feitiço para você sumir. Só ela que não gostava de você. Mas ela não gostava de ninguém!
A empregada nova bateu na porta e avisou que o almoço estava na mesa. Eu até gostei dela, gostei porque ela era muito diferente da Sra. Adelaide. Mas eu não queria comer. Não tinha fome. Só que a vovó Heloísa estava em casa e eu precisava descer, eu prometi para ela.
Quando eu entrei na sala de jantar, o meu papai estava sentado na cabeceira. Ele estava emburrado e com aquele terno escuro e a gravata preta ficava mais emburrado ainda. Ele não ganhava mais beijos de bom dia e estava virando o Bicho-papão de novo. Ao lado dele, a vovó Heloísa o encarava como se estivesse pensando em colocá-lo de castigo. Ela devia fazer isso. Ele não podia ter deixado a Lolô sumir.
Eu me sentei na minha cadeira, a que eu passei a sentar porque a Lolô se sentava entre o papai e eu e nós dois poderíamos segurar a mão dela. Eu olhei para o lugar da Lolô vazio... tudo tinha ficado vazio.
- Alice, sente-se no seu lugar. - O papai falou com aquela voz de bravo.
- Eu já sentei. - Eu respondi, sem nem querer olhar para ele, mas eu vi a vovó olhando para ele de cara feia.
A Maria, a funcionária nova, começou a servir os pratos, sem fazer nenhum ruído. Eu cruzei os braços e recusei o prato que ela colocou na minha frente. Eu não tinha fome, eu tinha saudade, uma saudade que estava doendo muito. Eu criei coragem e fixei os meus olhos nos olhos do meu papai. Ele nem sequer olhou para o meu cabelo torto para ver como a minha Lolô me fazia falta.
- Papai. - Eu chamei, a minha voz era o único barulho nesta casa agora e eu não gostava de ouvir a minha voz o tempo todo. - Desfaz o feitiço.
O papai não se mexeu. Continuou olhando para o prato.
- Desfaz o feitiço, papai. Não deixa a bruxa da Sra. Adelaide vencer. Fica bravo comigo, pode gritar comigo, me coloca de castigo, faz o que você quiser... - Eu funguei, os meus olhinhos se enchendo de lágrimas que eu não conseguia segurar, a minha voz ficando mais alta para ver se ele me ouvia. - Mas traz a minha Lolô de volta, papai. Eu sei que ela me ama e eu amo muito a minha Lolô. Traz ela de volta. Você prometeu que ela era o nosso banquete, que ela ia ficar para sempre.
- Alice, chega! - O Bicho-papão falou com raiva.
- Você mentiu para mim! Você não ama a minha Lolô, Você não me ama! Se amasse a gente não tinha deixado ela sumir. - As lagrimas desciam pelo meu rosto descontroladamente.
Eu pensei que ele ia me dar um chocolate, mas o que ele tinha era muito melhor e fez eu sentir um frio na barriga de ansiedade.
- Consigo, eu juro que consigo! - Eu sussurrei, limpando o rosto com as mãos e o nariz na manga do meu casado.
O Tio Beto sorriu, tocou na tela e deu o play em um arquivo de áudio e me entregou o celular. Eu coloquei rapidinho no ouvido. No segundo seguinte, oeu escutei a voz mais doce do mundo. A voz da minha Lolô.
"Minha menininha linda, meu amor... é a Lolô. Eu estou morrendo de saudade de você, do seu sorriso, dos nossos desenhos, do seu abraço. A Lolô precisou dar uma saída de casa, mas eu quero que você escute com muita atenção: eu nunca, nunca vou esquecer você. Você é a minha menina, sempre vai ser. Eu preciso que você seja uma garotinha muito forte agora, tá bom? Coma toda a comida, obedeça a vovó e o Tio Beto e não fique brava com o papai. A Lolô ama você além do infinito. Nós vamos nos ver de novo, eu prometo. Seja a minha princesa valente. Muitos beijos, minha menina!"
O áudio terminou. O Alberto guardou o celular no bolso rapidamente. Eu voltei a chorar, mas agora não era um choro de dor. Era um choro de alívio. O feitiço não tinha apagado o amor dela. Ela pensava em mim. Eu só precisava descobrir como fazer para ela voltar.
- Tio Beto, de vez em quando você deixa eu ouvir a voz da minha Lolô de novo? Só até ela voltar. - Eu pedi, porque com aquela mensagem eu senti ela um pouquinho perto.
- Sempre que você quiser, querida. Mas não se esqueça, é um segredo! Agora vai para dentro com a Maria, vá até a cozinha e coma alguma coisa, você precisa ficar forte pela Lolô.
Eu fiz que sim e olhei atrás dele. De longe, perto da porta da cozinha, a Maria estava parada, segurando um pano de prato. Ela não se aproximou. Apenas observou e sorriu para mim de um jeito que eu gostei. Eu me levantei, dei um abraço forte no Tio Beto e fui até a Maria. Eu ia descobrir como fazer a minha Lolô voltar.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite