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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 213

"Marcelina"

Estávamos aqui outra vez. Como se nada tivesse acontecido, como se nunca tivéssemos saído. Já fazia uma semana que a Lorena e eu havíamos voltado para a boate e naquela sexta feira o ar da Infernal parecia mais sufocante, mais rarefeito.

O cheiro denso do novo perfume da Scarlet se misturava ao rastro de orquídia negra do meu próprio perfume novo, flutuando pelo camarote mais VIP da Infernal e criando uma névoa de luxo opressor que deixava claro exatamente o que o Barão havia dito ao nos contratar de novo: nós éramos "as rainhas do O Trono".

O Barão havia cumprido a palavra: montou um bar de cristal exclusivo dentro do camarote, com as bebidas mais caras, copos e taças de cristal, itens em prata e uma charutaria refinada. Aquele camarote se transformou não apenas no melhor camarote da boate, mas também no selo de aristocracia onde não bastava apenas ter o dinheiro para pagar por ele, era preciso pertencer a uma classe muito seleta para conseguir acesso a ele. E a Pandora e a Scarlat eram as atrações enjauladas da realeza. Intocáveis. Lindas. Celebradas com euforia. E com o estômago revirando de puro ódio.

Eu ajeitei os karaffs de cristal lapidado no balcão e olhei para a Scarlat de soslaio. Ela estava distribuindo as macadâmias, frutas secas e azeitonas premium em pequenas petisqueiras de cristal. Com aquela peruca nova vermelho-cereja, os cachos longos caindo pelas costas e os dois coques altos, o olhar furioso e o sorriso gelado, ela parecia uma boneca assassina de mangá. A franja lateral era quase um desaforo, quase inocente demais para estar num figurino tão sensual. Aquela Scarlat tinha a frieza de quem não tinha mais nada a perder.

- Você está bem, Scarlat? - Eu perguntei e ela se virou para mim.

- Não sei, Pandora... uma sensação... como se algo... não sei explicar.

- Eu sei. Hoje é sexta, amiga. Era o dia daqueles engomadinhos de merda. Mas eles estão proibidos de entrar aqui. - Eu lembrei e percebi um certo alívio cruzar os olhos dela.

- Quando eu saí, eu não imaginei que voltaria a colocar os pés nesse lugar. - Ela comentou desolada.

- Nem eu. Mas já que voltamos, vamos descontar nossa raiva nesses riquinhos que acham que o dinheiro deles os faz melhor que nós. Vamos arrastá-los ao inferno e fazê-los sair daqui bêbados e um pouco menos ricos. - Eu falei e ela sorriu para mim.

- É muito louco isso, eles gostam de ser desafiados por nós.

- Isso é porque no mundinho deles eles são tratados como deuses. Mas esse aqui é o nosso inferninho e nós vamos tratá-los como pagãos mortais e miseráveis. - Eu ergui a sobrencelha para ela e nós gargalhamos juntas. Mas a alegria durou pouco.

O Andrey, mais contido, não tirava os olhos da Scarlat. O silêncio que desabou entre nós quatro foi mais pesado que a música eletrônica que tremia o chão.

Eu respirei fundo e limpei a garganta, eu estava trabalhando e não podia me dar ao luxo de perder esse emprego. Eu dei um leve empurrão na Scarlat que pareceu voltar a si também. Nós saímos de trás do balcão copmo boas anfitriãs para receber os nossos clientes.

- Bem vindos ao nosso inferno, cavalheiros. Sentem-se, vamos estabelecer o nosso pacto. - A Scarlat começou, a voz saindo linear, fria, evocando a persona da Scarlat com toda a agressividade e atitude que ela tinha.

O Julian deu dois passos firmes em minha direção, invadindo o meu espaço pessoal e inclinando o corpo na minha direção. O perfume dele me causou um arrepio na pele que me fez estremecer. Aquele engomadinho não deveria ter tanto poder sobre mim.

- Que porra de brincadeira é essa, Marcelina? - Ele sibilou, a voz grave descendo para aquele tom arrastado que costumava me desarmar. - Eu dei baixa no seu contrato na holding, não na minha vida. Eu disse que poderia cuidar de vocês. Quem te deu autorização para voltar para... esse lugar?

- Aqui é Pandora, você conhece as regras. E você não me manda em nada, engomadinho de merda! - Eu rebati, sustentando o olhar dele com um deboche sensual e frio, embora as minhas pernas estivessem bambas. - O nosso acordo virou cinzas no dia em que o Albelini nos escorraçou. Você sumiu por um mês. ocê não tem ideia do que passamos procurando emprego e levando só porta na cara. Aceita que dói menos: eu sou a garçonete do camarote e você é só mais um cliente que eu sou obrigada a servir. Agora senta lá e para de latir.

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