"Marcelina"
Assim que a Lorena saiu, eu voltei para o escritório do Barão com o figurino da Scarlat devidamente empacotado. Ao entrar, eu bati a porta com tanta força que os dois quadros na parede tremeram. O Barão me olhou intrigado. Eu bati a caixa com o figurino da Scarlat e a peruca em cima da mesa dele com um baque ruidoso, cruzando os braços e o encarando a espera de algo. Eu queria respostas. O Barão se recostou na cadeira, com aquele sorrisinho preguiçoso, como se me desafiasse.
- Achei que ia dar o seu ataque antes. - Ele falou irônicamente.
- Ataque? Se você abusar muito eu quebro essa boate inteira! E pode ir tirando esse sorriso da cara, Barão, porque comigo esse teatro não funciona. - Eu rosnei, o meu sangue fervendo, com toda a agressividade que eu tinha na pele. - Que porra de palhaçada foi aquela de dar um envelope cheio de dinheiro como "rescisão" para a Scarlat? Você é um mercenário que vende até a mãe por duas notas de cem.
O Barão respirou fundo, guardou o lenço em sua mão no bolso do paletó risca de giz e me encarou com uma frieza que lembrava os gângsteres que eu via nos filmes.
- Eu já disse, Pandorinha: a Scarlat prestou bons serviços e a casa sabe ser generosa. - Ele mentiu com um cinismo que me deu náuseas. - Os negócios não param. Agora saia da minha sala, eu tenho uma contabilidade para fechar.
- Você não vai fechar porra nenhuma até me dizer a verdade! - Eu dei um tapa firme na mesa e ele me bufou, nada surpreso. - Eu sei que tem algo por trás desse seu tom generoso e amigável. Você nunca paga rescisão. Quem deu a ordem, Barão? De onde veio aquele dinheiro? Quem pagou para você liberar a Scarlat sem um mísero chilique?
- Você está sendo injusta, Pandorinha. Eu já te paguei rescisão uma vez. Agora chega. Saia daminha sala, você não se demitiu, então está na hora de trabalhar. O Trono te espera, você agora é a rainha única e absoluta. - Ele sentenciou, o tom de voz descendo para um limite perigoso que me fez recuar.
Eu virei as costas furiosa e caminhei com passos ruidosos em direção ao Trono. O camarote VIP ainda estava vazio, mas o silêncio durou pouco. Pouco depois, a portaria foi liberada e nao demorou para que o Julian Beaumont cruzasse a porta do Trono acompanhado pelo Andrey.
Eu tive até um pouco de pena dele. O rosto do meu "Baby" estava completamente estraçalhado, exalando uma exaustão brutal. Ele estava igualzinho a Lorena, a tensão nos ombros, as olheiras, o vinco na testa. Ele não falou nada, simplesmente entrou e se sentou na poltrona principal, o paletó aberto, a gravata frouxa, o cabelo bagunçado e os olhos presos em mim com aquele sofrimento contido que costumava me balançar.
- Oi, Pandora! - O Andrey cumprimentou meio desanimado.
- O mundinho rosa chiclete de vocês desmoronou? - Eu perguntei num tom bem sarcástico. - Ou vocês só ficaram sem assunto mesmo?
- Digamos que nós estamos tentando segurar as paredes que estão ruindo e não está dando muito certo. - O Andrey sorriu. - O que você recomenda para isso?
- Senta lá. Vou escolher o veneno de vocês. - Eu respondi.
Eu olhei para o Julian, ele tinha se sentado e jogado a cabeça para trás, no encosto da poltrona, e fechado os olhos. Eu olhei para o homem de terno sob medida que tinha o maior superpoder de gerenciamento de crises daquela cidade e tomei a minha decisão. Eu precisava proteger a Lorena e o bebê a qualquer custo e eu estava pressentindo algo se movimentando ao nosso redor, não saber o que era me preocupava.
Eu precisava de respostas para saber quem estava nos cercando. Engoli todos os sinais de alerta que me diziam para ficar longe dele, peguei uma garrafa de rum Havana Club e passei para o lado de fora do balcão. Servi um copo ao Andrey e, ignorando o seu olhar de surpresa, servi uma dose e passei para trás da poltrona onde o Julian estava sentado. Ele não se mexeu e nem abriu os olhos. Então eu segurei o seu rosto com as duas mãos e colei a minha boca na dele, transferindo a bebida em minha boca para ele e finalizando com um beijo. Eu o peguei totalmente de surpresa, ele retribuiu o beijo e abriu os olhos quando eu me afastei só o suficiente para ver os seus olhos.
Ele mal acabou de falar e me beijou, um beijo quente, possessivo e que parecia cheio de saudade. Fopi um beijo longo, que me deixou sem fôlego e deixou mascar da minha maquiagem na boca dele.
- Eu sinto sua falta, Baby. - Ele sussurrou no meu ouvido, mas não me deu tempo para pensar em uma resposta. - Agora vamos aos negócios. - Ele anunciou animado. - Tudo no nosso mundo tem um preço de conformidade... e você sabe muito bem como eu funciono, preciso estar altamente motivado. - Ele sibilou, a voz grave descendo para aquele tom arrastado que me deixava com as pernas bambas. - Eu descubro quem pagou a conta da Lorena. Mas nós vamos firmar um novo pacto sob este teto: você vai parar com esse chilique de me manter longe. Assim que eu te entregar esse nome, você vai destrancar a sua porta e vai aceitar que o contrato da sua vida pertence a mim. É pegar ou largar, Baby. Qual é a sua oferta?
- O contrato... da minha vida? - Eu engoli em seco, sentindo o meu coração disparar. Olhei nos olhos dele, vi a promessa que ele carregava e fiz o trato.
- Fechado, Beaumont. - Eu respondi num ímpeto ríspido. - Descobre a verdade e você tem o que quer.
- Só mais uma coisa. - Ele deu mais um gole na bebida. - Você vai parar de me chamar de "engomadinho de merda" e vai voltar a me chamar de Baby. E isso não tem nada a ver com eu descobrir ou não quem é o financiador, isso tem a ver com o fato de você poder contar comigo sempre que precisar ou quiser.
- Está bem. - Eu suspirei, eu mesma já estava cansada do "engomadinho de merda".
O Julian sorriu, satisfeito, virou a bebida e se retirou do camarote com o Andrey.

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