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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 247

"Lorena"

No fim da tarde, a Marcelina e eu chegamos à boate Infernal para a minha última noite naquele lugar. Para falar com o Barão nós chegamos um pouco mais cedo. A boate ainda estava fechada para o público. Sem a música eletrônica pesada vibrando, sem as luzes neon vermelhas ou a névoa artificial. Apenas o vai e vem de alguns funcionários que já estavam por ali.

Eu segurava a alça da minha bolsa com força, sentindo as minhas mãos frias de puro nervosismo. Eu ainda não havia entrado no meu figurino. Estava usando um moletom largo e calça jeans. Eu tinha certeza de que o Barão ia surtar de raiva. Ele havia feito um leilão pelas nossas vagas semanas atrás, o que significava muito dinheiro antecipado e eu não me esqueci que a condição da nossa volta incluía obediência cega. Deixar a boate de uma hora para outra parecia uma missão suicida e certamente essa porta estaria lacrada se o meu novo emprego não desse certo, mas eu precisava tentar.

As minhas mãos estavam frias e eu estava tentando pensar em como evitar a ira do Barão. Eu tinha certeza de que o Barão ia surtar de raiva, berrar comigo e jogar na minha cara que tinha aberto as portas para mim e eu estava sendo ingrata. Isso se ele não resolvesse me cobrar a multa que ele prometeu se nós decidíssimos sair da boate de uma hora para a outra.

- Fica calma, Lô. - A Marcelina sussurrou ao meu lado enquanto caminhávamos até o escritório do Barão. - Se aquele diabo tentar crescer para cima de você ou cobrar alguma multa absurda, eu mesma acabo com ele.

Eu respirei fundo, engoli a náusea que ainda insistia em incomodar o meu estômago toda vez que eu entrava na boate e sentia o cheiro de álcool e empurrei a porta do escritório da gerência. O Barão estava sentado à mesa, como os olhos fixos na tela do celular.

- Ora, ora, minhas patinhas dos ovos de ouro. Ou melhor, as rainhas do "O Trono". - Ele colocou o celular de lado e se virou para mim. - O que vocês querem, garotas? Porque vocês só aparecem no meu escritório para pedir alguma coisa.

- Na verdade sou eu quem quer, Barão... eu vim te dizer que vou deixar a boate. Definitivamente. Hoje é a minha última noite. - Eu anunciei de uma vez, sustentando o olhar dele.

Eu me preparei para um rol extenso de xingamentos. Esperei que ele batesse a mão na mesa e ameaçasse me jogar na miséria ou chamar os seguranças da portaria para me impedir de sair. Mas nada disso aconteceu. O Barão apenas respirou fundo e deu um riso curto e seco. Ele ergueu os olhos frios para mim, como se inspecionasse o meu figurino, deu de ombros e abriu a gaveta da mesa com uma naturalidade espantosa.

- É, como esperado. Você arrumou outro emprego. - Ele falou como se já soubesse de tudo. - Muito bem, Scarlat. Você não precisa ficar esta noite. - Ele falou e tirou da gaveta um envelope, o estendendo na minha direção, como se aquilo estivesse agendado há dias. - Vou sentir sua falta. E o Trono ainda mais, mas os negócios não param e no mercado da noite, quem quer ir embora não rende lucros. Desejo boa sorte na sua nova... fase de reestruturação. Pode ir. Você ainda fica, não é, Pandorinha?

- É... eu fico... - A Marcelina respondeu meio chocada.

- Agora saiam do meu escritório, eu tenho uma noite de bilheteria para organizar.

- Obrigada, Barão. Eu espero não precisar voltar, mas é bom saber que se precisar posso recorrer a você. - Eu falei e ele sorriu outra vez, fazendo um gesto de mão para nos dispensar.

A Marcelina pegou a minha mão e nós saímos do escritório direto para o camarim. Aquilo tinha sido fácil demais. Esquisito demais.

Eu juntei o figurino da Scarlat e a peruca e entreguei a Marcelina, peguei tudo o que era meu e saí dali. Atendendo ao pedido da Marcelina eu peguei um taxi para voltar para casa. Mas aquela sensação estranha não me deixou. O Barão era um mercenário que vendia a própria alma por dinheiro, mas me liberou sem um único grito, sem perguntas e sem nenhuma complicação.

Eu olhei para trás, encarando o letreiro da boate, com a terrível sensação de que não era mais o Barão quem dava as cartas na Infernal. E aí, uma ideia louca passou pela minha cabeça: o Barão não havia reagido daquela forma por bondade. Aquilo tinha sido uma ordem da "Fonte". Mas como ela sabia que eu pediria para sair em algum momento? Quem era a Fonte? Eu precisava falar com o Julian, ele era o único que poderia me ajudar a descobrir isso. Mas o0 que importava naquele momento era que eu estava livre. A Scarlat havia morrido... de novo, mas dessa vez ela permaneceria morta e enterrada e na manhã seguinte eu começaria a reconstruir o meu destino bem longe de tudo ali.

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