"Érick"
O silêncio do meu escritório no Grupo Albelini era cortante, mas o barulho dentro da minha cabeça continuava insuportável. Dias haviam se passado desde aquela manhã no apartamento do Andrey, mas as coisas que eles me falaram naquele dia flutuavam insistentemente em meus pensamentos.
Eu estava recostado na minha cadeira, com os olhos fixos na mesa, encarando o nada. As palavras do Julian e do Andrey giravam em minha mente: ela devolveu cada centavo... a Victória é perfeita demais... investigue por si mesmo... a consultoria da Victória está falhando... o maior erro da sua vida.
- Para com isso, Érick! O Julian e o Andrey não conhecem a Vicky como você. - Eu reprovei os meus pensamentos em voz alta, tentando expulsá-los.
Eu tentei focar nos relatórios de auditoria do Balthazar De La Vega, buscando uma linha lógica, mas a paranoia havia assumido o controle. Eu ordenei uma varredura interna silenciosa nas contas da holding. Eu queria cruzar os dados, entender como a empresa menor da Vicky havia entrado com tanta facilidade, de uma forma quase natural, orgânica, e checar o suposto depósito que a Lorena havia feito para devolver o salário de babá. Eu precisava saber.
Mas o tempo estava me sufocando. Faltavam apenas dois dias para o casamento. Dez dias nunca passaram tão rápido para mim. Eu estava correndo contra o relógio. Eu não queria errar... eu não podia. A Vicky tinha sido sempre tão compreensiva que eu não podia puní-la sem motivo. Além do mais, eu não podia adiar o casamento que já estava alardeado por todo o mercado financeiro, isso daria margem a fofocas que poderiam custar caro. Ou eu cancelava com um motivo sólido, ou eu me casava. Eu sentia a corda no meu pescoço.
Eu voltei para casa no final da tarde com algo pesando o meu peito. Eu não via a Alice há dias, eu estava sempre saindo muito cedo e voltando muito tarde para casa. A auditoria que o consultor do novo sócio estava fazendo estava tomando o meu tempo, mas não era só isso.
Assim que eu cruzei o hall, o perfume de bergamota da Victória me atingiu, mas em vez de calmaria, aquilo me causou um sutil desconforto. Eu vinha evitando tocá-la de todas as formas nos últimos dias. O meu corpo se recusava a ter intimidade com ela; a semente da dúvida que o Julian plantou havia transformado o toque dócil dela em um alerta de perigo abafado que eu não conseguia mais ignorar. Eu só... precisava saber a verdade.
A Vicky estava me esperando na sala de estar, usando um vestido impecável num tom suave de pêssego e segurando algumas revistas de turismo de luxo com um sorriso de pura satisfação.
- Érick, meu querido, finalmente você chegou! - Ela falou com aquela suavidade dócil, aproximando-se para me dar um beijo nos lábios que eu evitei virando o rosto sutilmente, ajeitando o paletó do meu terno escuro. Se ela percebeu, ela não comentou, apenas passou o braço pelo meu e me puxou para o sofá. - Eu estive conversando com a agência de viagens sobre a nossa lua de mel nas Maldivas logo após o cartório. Nós precisamos fechar os assentos da primeira classe amanhã bem cedo...
- Não vai haver lua de mel, Victória. - Eu decretei, a minha voz saindo num tom ríspido que cortou o ambiente como um tiro.
O sorriso dócil dela congelou no mesmo milésimo de segundo. As pupilas dos seus olhos verdes se estreitaram.

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