"Érick"
A minha casa agora era mais silenciosa que um mosteiro budista. Nem a Alice corria mais pela casa e nas últimas semanas ela não gritou mais que me odiava... ela nem falava mais comigo e sempre que eu tentava me aproximar ela se afastava. Até a minha mãe parecia chateada comigo... não parecia, ela estava chateada comigo. Eu me sentia sozinho e todo esse silêncio deixava espaço para os pensamentos me atormentarem.
O silêncio da minha casa e toda aquela calma da Victória já não me trazia paz desde que o Julian e o Andrey plantaram aquelas dúvidas na minha cabeça. E agora ainda tinha os relatórios do Balthazar apontando vários erros da Vicky. Eu nem conseguia mais conversar com ela, era como se eu não soubesse mais quem a minha esposa era. Esposa... talvez aquele idiota do Julian tivesse razão e eu estivesse a um passo de me arrepender desse casamento que estava se revelando uma bela fachada torta.
E foi justamente por causa de tudo isso que eu saí de casa essa manhã, mesmo com as reclamações da Vicky e a insistência dela de que não passávamos mais tempo juntos. Ela até tinha razão, mas eu não conseguia mais me sentir à vontade com ela. Eu precisava entender os erros que estavam sendo encontrados na holding e como a Victória os cometeu. Eu precisava saber mais sobre a minha ela e não apenas que era filha única e os pais já haviam morrido e deixado uma vultosa herança. Pelo menos foi o que ela me disse e eu não duvidei, não tinha porque, ela tinha a pose, a elegância, os bons modos e a boa educação da elite. Ela sabia se portar, falava três idiomas e tinha aquele apartamento de cobertura duplex num dos endereços mais caros da cidade. Como eu poderia duvidar?
Eu fui para a empresa e passei o dia trancado no escritório, fingindo revisar os relatórios de inconformidade, mas a verdade é que os meus olhos mal conseguiam focar nas linhas. Todas aquelas dúvidas continuavam atormentando a minha mente e queimando no meu peito como um alerta de perigo que eu havia ignorado.
Eu vinha observando a Victória desde aquele dia depois que voltei da casa do Andrey. Cada gesto dócil, cada palavra cronometrada e a pressa dela em parecer compreensiva sobre qualquer assunto, começavam a parecer um roteiro ensaiado. Até aquele perfume, o mesmo cheiro limpo de bergamota que a minha falecida esposa usava, como se não quisesse impor sua presença, mas se fazendo notar assim mesmo.
Por outro lado, vez ou outra era como se ela se esquecesse de ser compreensiva e dócil, como no assunto da lua de mel ou como a reclamação sobre a suíte master, uma reação irritada seguida de uma contenção repentina. Isso e outras pequenas coisas estavam me incomodando, como por exemplo todos aqueles vestidos em tons pastéis, não havia uma cor vibrante no guarda-roupas dela, nem mesmo um pretinho básico. Era tudo quase entediante em tons desbotados. E com isso, noite após noite eu encontrei uma desculpa para trabalhar até tarde e não compartilhar a cama com ela. Eu estava casado de papel passado, mas ao contrário do que pensei, aquele casamento não me trouxe a paz que eu esperava.
Quando a noite caiu, o escritório já parecia estar se fechando sobre mim, me convertendo num homem clautrofóbico e agitado. Eu não aguentava mais tentar analisar todos aqueles relatórios e a minha cabeça estava quase explodindo com todos aqueles pensamentos, mas havia um pensamento persistente: a Lorena, vestida de Scarlat, sob a luz neon daquele camarote privado, se entregando inteiramente a mim, com aquele fogo que me fazia sentir vivo. E pensar na Lorena estava me levando à loucura. No meu íntimo, a ferida da traição sangrava na mesma proporção da ferida da saudade doentia daquela mulher. Como eu poderia estar sentindo tanta falta da mulher que mentiu, que me traiu, abusou da minha confiança?
Em um rompante de pura fissura pelo meu vício, a minha razão cedeu. Eu peguei as chaves do carro, saí do escritório e dirigi em alta velocidade em direção àquela boate infernal... eu não pude deixar de observar que ironicamente o nome fazia jus ao lugar. Eu deixei o meu orgulho de lado, ignorei o fato de ser um homem casado e foi atrás da única mulher que tinha conseguido entrar no meu coração. Eu precisava dela mais uma vez, mais uma maldita dose do seu veneno.


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