"Érick"
O silêncio do Julian era mais alto do que se ele gritasse "preciso te contar algo" e já estava me incomodando os olhares de dúvida que ele me lançava. Em outros tempos, ele já teria falado, mas agora que não éramos mais que parceiros de negócios, ele estava me encarando daquele jeito.
- E você, Julian? Você investigou a minha esposa. O que você descobriu? - Eu perguntei com um cinismo cortante.
- Eu não descobri nada, Albelini. Exceto que ela levou uma traidora de volta para a sua casa e isso por si só já é suficiente para torná-la não confiável, pelo menos para mim. - O Julian respondeu mantendo a voz profissional.
- Não se faça de bobo, Beaumont! - Eu vociferei, batendo a mão na mesa com força, a fúria explodindo de vez. - Eu conheço você desde sempre. Eu sei que você tem contatos na inteligência privada e sei que você investigou a Victória Lemos pelas minhas costas! E sei que você está me escondendo alguma coisa. Fala de uma vez!
O Julian passou a mão pelo rosto exausto, suspirou pesado e me encarou de frente.
- Quer a verdade, Érick? Pois bem, parece que antes de aparecer aqui na holding, a Victória Lemos simplesmente não existia. Eu revirei o rastro financeiro dela e não encontrei absolutamente nada. E sobre a empresa de compliance dela, só parece ser uma consultoria menor, sem grandes contratos ou histórico expressivo no mercado comum, até esbarrar milimetricamente no Grupo Albelini. É tudo limpo demais. Parece orquestrado. E na minha opinião você se casou com uma completa estranha que pode não ser nada demais, ou pode ser a emissária do apocalipse!
As palavras do Julian reviraram o meu estômago. Ele tinha razão em um ponto, a Vicky lervar a Adelaide de volta para a minha casa acendeu um alerta enorme em mim, um alerta que me fez começar a me afastar dela por alguma razão. Mas o que realmente me preocupou foi ele dizer que ela não existia antes de mim. Como isso era possível? Todo mundo tinha um passado. Até a Lorena tinha um e eu investiguei, os rastros dela só foram apagados quando ela foi para a boate se vender... e esses rastros foram apagados por alguém que sabia muito bem o que fazer.
- Puta que pariu! - Eu soltei, passando as mãos no cabelo de forma exasperada. - Seja o que for que tem no passado, ela não quer que eu descubra.
- Ah, olha, ele entendeu finalmente! - O Julian falou de forma debochada e ele tinha razão. - É isso, Albelini, que eu venho tentando te dizer. A sua esposa perfeita é perfeita demais, tem uma traidora que te conhece muito bem como funcionária de confiança e com certeza está escondendo algo bem importante.
- Merda! Nós precisamos descobrir o que é. - Eu concordei finalmente.
- Mas como? Ela não vai te contar. - O Andrey soltou.
- Eu vou resolver isso. Vou acionar alguns contatos de emergência que podem ajudar. - Eu me levantei. - Andrey, encerra o contrato da auditoria da Victória. Tente descobrir o que nosso adorável sócio que não mostra a cara pretende. Eu confio no seu julgamento, se você achar que ele realmente está ao nosso lado, vamos em frente com o plano do Balthazar.
- Julian... - Eu me virei para ele que continuava com aquela cara de quem ia expolodir com algo se não falasse. - Eu quero saber quem é "A Fonte".
- A Fonte? - Ele me encarou surpreso.
- Ainda não, afinal pode ser que a Vicky seja perfeita e esses furos não passem de esquívocos. - Eu respondi e a gargalhada alta do Julian tomou conta da sala de reunião.
- Você é um hipócrita, Albelini! - O Julian gritou na minha cara e num acesso de fúria ele foi em frente. - Para a Lorena você sequer deu uma chance dela se explicar... a Lorena, a mulher que você ama! E não diga que não, você nem consegue esconder isso. Mas para uma estranha você dá o benefício da dúvida. Por que? Porque ela diz ser uma herdeira? É por isso, Albelini? No fim das contas você é um hipócrita elitista como a Adelaide.
- Você não sabe as merdas que diz, Julian! O que a Lorena ia explicar? Eu tenho todas as provas. Você sabe onde ela trabalha agora? Não deve saber ou não estaria me acusando de ser um hipócrita elitista.
- Onde ela trabalha agora não a diminui em nada, seu idiota! - O Julian gritou.
- Faz uma coisa, Julian, aproveita que você tem várias investigações para fazer e investiga a Lorena. E depois nem precisa se desculpar comigo. - Eu falei para ele e virei as costas.
Eu saí da sala de reuniões marchando a passos rápidos e estrondosos, o coração disparado. Eu voltei para a minha mesa e abri o meu notebook outra vez. O site de garotas de programa estava aberto e eu encarei a fotografia da Scarlat. A fotografia colorida sob uma luz baixa exibia a peruca vermelha com as pontas azuis, a mesma que ela usava quando eu a vi pela primeira vez na boate. A mesma roupa que ela usava lá, o espartilho preto apertado e a mesma máscara de maquiagem pesada cobrindo o seu rosto e mudando os seus traços. O jogo de luzes na penumbra da foto escondia ainda mais o seu rosto, tornando impossível reconhecer os traços com nitidez, mas era ela, eu tinha certeza que era ela. Só podia ser ela.
A Lorena tinha saído da boate para vender programas privados na internet. Ela havia conseguido cair mais baixo ainda. O ódio mais primitivo e um surto psicótico de ciúme explodiram debaixo da minha pele, fazendo a minha jugular pulsar visivelmente no reflexo da tela. A fúria me deixou possuído. A minha babá doce e perfeita havia virado mercadoria de luxo em quartos decadentes de hotel. Mas se era assim, eu seria o dono do seu tempo esta noite, ela seria o meu próximo contrato. Eu ia arrancar o espartilho dela mais uma vez, nem que fosse o último passo para a minha própria destruição.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite