"Lorena"
Quarenta e oito horas de repouso. Não tem nada mais chato que cumprir repouso. Felizmente a D. Cecília mandou trazer a cadeira de balanço para o meu quarto e fica sentada comigo praticamente o dia todo. Eu passei a terça feira deitada, encarando o teto, enquanto a medicação que o Dr. Lucas me aplicou fez o meu corpo amolecer em uma calmaria que contrastava com todos os meus sentimentos. A minha mente continuava como um território em guerra.
O Dr. Lucas entrava no quarto a cada poucas horas com uma sutileza admirável e com uma paciência e uma doçura comoventes. Foi assim que ele entrou no final da tarde, trazendo uma xícara de caldo quente e com um sorriso checando os meus sinais vitais. Havia um cuidado no toque dele, uma preocupação tão legítima com a minha saúde e do meu bebê que me deixava um tanto encabulada.
- Você precisa se alimentar, Lorena. - O Dr. Lucas pediu com aquele meio sorriso encantador que a D. Cecília tanto gabava nas fotos. Ele se sentou na cadeira lateral, me estudando com aqueles olhos castanhos cheios de uma gentileza incomum. - A sua pressão estabilizou, mas você continua ansiosa e preocupada. Eu não quero te pressionar, mas estou ficando preocupado. O que realmente aconteceu naquele portão? Quem era o homem que te deixou naquele estado de pânico?
O nó na minha garganta apertou. Eu olhei para as mãos dele e engoli o choro, mantendo a compostura. Eu não podia contar a verdade. Não podia revelar que o meu ex-noivo golpista havia havia aparecido depois de quase um ano e estava exigindo dinheiro... me ameaçando. Eu gostava desse emprego e não queria perdê-lo.
- Foi apenas... um mal-estar, doutor. Um susto bobo com alguém passando, nada demais... ele só me lembrou alguém. - Eu menti em um sussurro, desviando os olhos.
- O pai do seu filho? - Ele perguntou de repente.
- Não... outra pessoa.
O médico me encarou por alguns segundos longos e mortais, captando a minha negação, mas foi nobre o suficiente para não me pressionar. Ele apenas ajeitou o cobertor sobre o meu peito com um carinho que desarmou o resto do meu profissionalismo.
- Está bem. Então agora pare de me chamar de doutor. E me conte sobre este bebê, já sabe se é menino ou menina? - Ele sorriu de forma afável e foi inevitável sorrir de volta.
- Ainda não... eu ainda não decidi se quero saber...
No fundo eu ainda esperava por alguém... eu esperava que o Erick pudesse me compreender e aceitasse o bebê, para que descobríssemos juntos se seria menino ou menina. Mas eu afastei esse pensamente e deixei que o Lucas conduzisse uma conversa agradável, sobre temas menos espinhosos e que me fez esquecer por um momento as minhas preocupações. A voz dele, sempre calma e num ritmo agradável, me tranquilizava.
- Já vi tudo, mamãe, está bancando a casamenteira. - A D. Débora sorriu. - Acho uma ótima ideia! Eu adoraria ter a Lorena como nora.
- D. Débora, não coloque mais ideias na cabeça da sua mãe. - Eu falei um pouco constrangida, mas sentindo uma satisfação por ser aceita, mesmo grávida e sem contar nada. Eles pareciam não se importar com o meu passado.
Aquela família, me oferecia um carinho que me salvava, mas por trás daquela calmaria que eles me ofereciam, o prazo estava passando e eu não sabia o que fazer. Faltavam menos de seis dias para o prazo do Carlos Eduardo estourar. Eu seria incapaz de sequer pensar em cometer uma atrocidade contra os meus próprios benfeitores, mas eu precisava proteger o meu filho e não sabia como.
Apertei as minhas mãos em cima da minha barriga e uma exaustão monumental esmagou a minha alma. eu sempre tinha um segredo. Desde que o Carlos Eduardo acabou com a minha vida e me atirou na rua, eu estava sempre escondendo alguma coisa. Eu escondi a Scarlat do Érick; escondi a gravidez; ocultei o meu passado dessa família e agora eu escondia a ameala que pairava sobre a minha cabeça. E o que eu estava fazendo? Apenas fugindo, me isolando e deixando que os homens com quem eu me envolvi acabassem com a minha liberdade por puro medo.
Enquanto eu refletia sobre o poder da mentira na minha vida e o quanto essas mentiras já haviam me prejudicado, o meu pequeno Albelini chutou firme contra a minha mão, parecia ter a mesma determinação e força do pai, e naquele milésimo de segundo, um fio de lucidez assustadoramente corajoso estalou nas minhas veias. A minha vida precisava de luz e as mentirasd só traziam escuridão. A farsa precisava acabar. Eu não ia me transformar em uma ladra por causa do Carlos Eduardo e não ia deixar o meu filho nascer nas sombras de uma mentira. Se o meu ex-noivo achava que a gravidez era a arma dele para me destruir, eu ia tirar a munição das mãos dele e eu já sabia como.
Eu encarei o jardim com uma nova determinação. Eu ia cumprir as minhas quarenta e oito horas de repouso, mas no sábado, assim que pisasse na vila, eu ia começar a por um fim aos segredos. Eu ia procurar o Érick Albelini, encará-lo de frente e contar que eu estava grávida do filho dele e que ele teria que me matar para tirar o meu filho de mim, mas se quisesse ser pai, sem me tirar o direito de ser mão, ele era bem vindo. O orgulho dele que se explodisse. era o meu filho e o Albelini teria que lidar comigo se quisesse ver o filho.

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