"Lorena"
O motorista da D. Débora estacionou o carro na entrada da vila e a minha atenção inteira se voltou para as vozes de crianças brincando no pátio na manhã de sábado. Eu entrei, observando o pátio, de um jeito que eu nunca observei antes, abri um sorriso e acariciei a minha barriga. Todas aquelas crianças brincando e correndo de um lado para o outro, eufóricas e sem preocupações, felizes... logo, logo, o meu bebê estaria nos meus braços e eu o veria crescer e em poucos anos ele poderia estar ali no meio daquela algazarra das crianças, feliz.
Eu estava usando uma blusa de algodão leve e justa, que desenhava com total nitidez a silhueta perfeitamente arredondada e firme dos meus cinco meses de gestação. Estar grávida pela primeira vez era uma jornada deliciosa e ao mesmo tempo assustadora. A sensação de gestar uma vida, sentir o corpo do meu filho crescendo dentro de mim e esticando o meu corpo para ganhar espaço, ouvir seu pequeno coração batendo e sentir seus chutes e cambalhotas na minha barriga eram a coisa mais extraordinária que eu já havia vivido. Mas eu também tinha medo... medo de algo dar errado, medo de não ser tudo o que o meu filho precisava, medo de perdê-lo.
Eu mentiria se dissesse que não fazia diferença não ter o pai dele comigo passando por isso, porque fazia. Às vezes eu me perguntava se o Érick estaria tocando a minha barriga carinhosamente e se emocionando com os chutes do filho... ou se ele conversaria com o bebê para que ele reconhecesse a sua voz ao nascer... ou se ele seguraria a minha mão e me garantiria que tudo ficaria bem. Eu me perguntava... mas eu nunca saberia. Mesmo que eu contasse a ele, eu nunca saberia, afginal não éramos mais um casal, sequer tínhamos uma relação cordial.
E falando em contar a ele, eu vinha me preparando para enfrentar o Érick, depois que decidi que ele precisava saber que teria mais um filho, eu vinha pensando em algum jeito de convencê-lo a não tirar o meu filho de mim, e então eu percebi que eu mesma precisava me proteger dessa possibilidade. Eu falaria com o Mariano e ele certamente me ajudaria.
E foi com a cabeça cheia de todos esses pensamentos que eu abri a porta de casa distraidamente e dei um passo para dentro da sala, fechando a porta atrás de mim. Mas o ar sumiu dos meus pulmões no momento em que eu levantei a cabeça sorrindo e olhei para os três rostos que me encaravam com emoções diferentes em cada um. A Marcelina me olhava quase como se pedisse desculpa. Ao lado dela, a D. Heloísa esboçou um sorriso, emocionada, com os olhos na minha barriga. E entre as duas, havia o sol que iluminava a minha vida inteira, com aquele sorrisinho do qual eu sentia tanta saudade, minha menina Alice.
- Lolô! - O grito da Alice cortou o silêncio da sala.
A minha menina deu um pulo do sofá e correu em minha direção. Com os braços abertos e os olhinhos azuis transbordando lágrimas, ela se jogou contra a minha cintura em um abraço avassalador, cheio de uma saudade dolorosa que me quebrou por inteiro. Eu soltei a minha bolsa no chão de qualquer jeito e me ajoelhei imediatamente, envolvendo o corpinho dela, soluçando e chorando junto, sentindo o calor da pele aquecer todo aquele frio que eu sentia por dentro há meses.
- Meu amor... minha menina, minha filha! Minha filhinha linda! Eu estou aqui. - Eu sussurrei com a voz trêmula, cobrindo o topo da cabeça dela de beijos, enquanto a Alice apertava as mãozinhas nas minhas costas.
Nós duas nos dissolvemos no chão, agarradas uma a outra enquanto deixávamos nossas lágrimas saírem, aliviando o aperto no coração que consumiu um pouco de nós todos os dias em que estivemos distantes. Ninguém interrompeu o momento em que a filhinha do meu coração estava de volta aos meus braços, preenchendo um vazio que só ela era capaz de preencher.
Mas quando a Alice se afastou sutilmente para olhar para o meu rosto, as suas pequenas mãos se deram conta que havia algo mais. Ela deixou as mãozinhas percorrerem lentamente a minha barriga, enquanto seus olhinhos azuis iam se arregalando de surpresa ao tatear o volume que não havia antes. E então ela sentiu, na pequena palma, um chute e prendeu o ar, voltando os olhos para mim com um brilho deslumbrado e os baixando outra vez para a minha barriga.


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