"Victória"
Eu girei a chave na fechadura da maldita suíte de hóspedes e comecei a rir. Se o Érick Albelini pensou, por um minuto sequer, que bater o pé e falar alto me faria desistir dos meus planos, ele era um idiota. Ele veio como uma tempestade, mas eu causei o caos. Apoiei as costas contra a madeira da porta, com os meus ombros ainda sacudindo da risada. A cara que ele fez para mim, como se o mundinho dele estivesse desabando... aquilo fez o meu dia. Os gritos na sala de jantar que ainda pareciam ecoar pelos corredores e a fúria dele não me assustava. Eu tinha que reconhecer, a minha prima Verônica era uma vadia que sabia como prender um homem, não me admira que tenha mantido aquele marido sem graça e o Simão por tanto tempo.
Eu parei em frente ao espelho, alisando o vestido no meu corpo. O Érick me fez um favor ao se livrar daquela chata da Adelaide. Aquela mulher se achava necessária demais, como um tipo de guardiã do templo da elite dessa cidade. Imagina como ela ficaria quando descobrisse que eu era filha de uma empregada... e mais, que ela foi usada como uma peça descartável no plano da minha prima. Ah, isso seria tão divertido quanto tomar metade de tudo o que o grande Érick Albelini tinha. Ou melhor, de quase tudo, porque essa casa eu queria inteirinha, só pelo desaforo que ele me fez ao me deixar nessa suíte de hóspedes. Eu não via a hora de tomar conta da suíte master.
- Quer saber? Eu vou fazer isso hoje. Pra quê esperar? Que se dane o que o Albelini quer, eu quero aquela suíte e vou me mudar para lá ainda hoje. - Eu sorri ajeitando o cabelo e olhei o celular que vibrou sobre a cômoda, o advogado tinha conseguido a liminar.
Abri o fundo falso da minha bolsa e puxei o celular que usava para falar exclusivamente com a Verônica. No primeiro toque, ela atendeu.
- Victória! Fale logo! - A voz ríspida e autoritária da Verônica soou no alto-falante. - Você fez o que mandei? O Simão está irritadíssimo. Além do Grupo Albelini ter congelado o seu contrato de consultoria e te escorraçado de lá, o contato dele foi descoberto e chitado para fora. E nem sinal de o preço das ações despencarem. Nós precisamos descobrir quem é esse sócio e enfrentá-lo diretamente, Victória. Você fez uma completa bagunça. Sequer conseguiu seguir um plano simples e perdeu a confiança do Albelini no momento em que se casou. Você é...
- Ai, cala a boca, Verônica! Não vem descontar em mim a sua irritação por estar trancada com esse velho chato num hotel da Europa. - Eu joguei na cara dela e podia jurar que ela rosnou para mim. A Verônica sempre foi uma tirana, sempre se achou melhor do que eu. - Eu fiz exatamente como você disse. E vou te dizer, você teve essa ideia na hora certa. - Eu falei mais baixo, um sorriso se desenrolando nos meus lábios. - O Érick tentou me colocar para fora de casa hoje de manhã aos gritos, ele estava fora de controle.
- O que aconteceu? - A Verônica quis saber.
- Ele parecia possuído, colocou a Adelaide para fora porque descobriu que o tal dossiê sobre a tal Lorena era falso. Você sabia disso? Pelo que entendi a governanta forjou todas as provas e a tal Lorena não era nada do que ela disse.
- A Adelaide fez isso? Nossa, ela foi mais esperta que o Simão. - A Verônica admitiu impressionada. - Mas nao tinha umas fotos?
- Parece que a Adelaide arrumou uma dublê ou coisa assim. - Eu voltei a rir. - E ela ainda se gabou que tinha conseguido uma herdeira para se casar com o Albelini.
- Herdeira? - A Verônica gargalhou do outro lado da linha. - Só se for herdeira do cabo da vassoura. Você é a maior fraude social dos últimos tempos, Victória!
- Isso foi desagradável para você dizer. - Eu reclamei. - Bom, o que importa é que o Albelini, como o cavalheiro que é, fez a grande gentileza de nos livrar da governanta. Aquela chata até que foi útil, mas agora... agora eu não preciso mais dela.


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